A missão como fundamento e meta da formação presbiteral

O pontificado do Papa Francisco tem dado um novo impulso no ardor missionário de toda a Igreja. Seu forte apelo por uma Igreja em saída, anunciadora da alegria do encontro com Cristo e da Boa Nova do Evangelho, é sentido por todos os cristãos. A partir deste apelo, estamos revisitando as fontes da missão e nos perguntando: por que somos missionários? Esta pergunta precisa se fazer presente para todos: bispos, padres, seminaristas, religiosos e leigos.

 

No último mês de julho, dos dias 16 a 21, cerca de 60 seminaristas de todo o Brasil estiveram reunidos em Brasília, na sede das Pontifícias Obras Missionárias (POM) para participar da 9ª Formação Missionária para Seminaristas (FORMISE). O encontro teve como tema “A alegria do Evangelho para uma Igreja em saída” e refletiu, com a ajuda de vários assessores, qual o papel da missão no caminho de formação dos futuros padres. O texto abaixo é uma pequena síntese do que foi trabalhado nos dias do FORMISE, do qual tive a alegria de participar.

 

O primeiro questionamento que precisamos fazer é, justamente, este que já foi levantado acima: por que somos missionários? Podemos começar a responder esta pergunta olhando para o próprio Jesus que, no Evangelho de João, diz: “Como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20, 21). Temos aqui um dado importante: alguém envia alguém. No caso, Deus Pai envia seu filho Jesus até nós, Ele desce e entra na nossa história, participando da nossa humanidade. Ele é o primeiro missionário, que estende este mandato a todos nós. Portanto, uma resposta para o nosso questionamento é esta: somos missionários porque Jesus foi missionário por primeiro e nós, como seus discípulos, fomos enviados também como missionários.

 

Outro dado importante para respondermos nosso questionamento é apresentado pelo documento do Concílio Vaticano II sobre a atividade missionária da Igreja, o decreto Ad gentes (AG). Logo no início, lemos o seguinte: “A Igreja peregrina é missionária por natureza, porque tem sua origem na missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai. Por isso, o impulso missionário é fruto necessário à vida que a Trindade comunica aos discípulos” (cf. AG 2). Neste trecho, é importante destacarmos duas palavras. A primeira delas é natureza. Ao falarmos em natureza estamos falando em essência, ou seja, aquilo sem o qual uma coisa não pode ser. Para entender melhor: quando falamos em “cadeira” podemos identificar as suas características, sem as quais ela não seria uma cadeira. Quando lemos que a Igreja é missionária em sua essência, precisamos entender que sem a missão a Igreja deixa de ser a Igreja de Jesus Cristo. A missão é o que caracteriza a Igreja. Esta essência é a própria essência de Deus Trindade. A missão vem de Deus porque Deus é amor, um amor que não se contém, que transborda, que se comunica, que sai de si e chega até nós. A missão, portanto, diz respeito àquilo que Deus é, diz respeito à sua essência.

 

Uma segunda palavra que precisamos destacar é missionária. Ao lermos que a Igreja é em sua essência missionária, precisamos também entender que não é mais a Igreja que envia missionários, mas ela própria é enviada como missionária. A missão é de Deus e quem cumpre esta missão é a Igreja. Uma conclusão que podemos tirar até agora é: não é a Igreja que tem uma missão; é a missão que tem uma Igreja.

 

Mas, por que o processo de formação presbiteral precisa se preocupar com isso? De acordo com São João Paulo II, no documento Pastores dabo vobis, sobre a formação dos sacerdotes, todo o processo formativo tem como meta a missão. Um padre não é ordenado para a sua diocese ou congregação, mas sim ordenado para a Igreja de Jesus Cristo e precisa servir onde necessitar. Portanto, um padre é ordenado para a missão, seja ela onde for.

 

A missionariedade não é somente um elemento a mais, reservado a alguns presbíteros. É missão de todos (portanto, de todos os padres e seminaristas também) sair de si para anunciar o evangelho do Reino. São João Paulo II, em outro documento (Redemptoris missio – RM), lembrou que “todos os sacerdotes devem ter um coração e uma mentalidade missionária” (RM 67), o que significa que toda atividade do padre deve ser em chave missionária. Isto pode acontecer na Igreja particular, mas sem jamais esquecer que “a missionariedade implica na disponibilidade para ser enviado a paróquias de outras dioceses, especialmente às mais pobres e distantes”, como reforça as Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja do Brasil, documento da CNBB.

 

Dentro do processo formativo, duas dimensões foram trabalhadas de forma mais aprofundada no FORMISE, como estando em íntima ligação com o espírito missionário dos futuros padres. Primeiramente, a dimensão espiritual. Não se faz missão sem oração. Como vemos muitas vezes nos Evangelhos, antes de qualquer ação Jesus rezava ao Pai. A oração é a primeira ação missionária. A dinâmica da missão consiste em ter encontrado Jesus para depois o anunciar. O encontro pessoal com Ele é a motivação para evangelizar. O amor que recebemos Dele, a experiência de sermos salvos por Ele, precisa fazer com que queiramos amá-Lo cada vez mais e, com isso, anunciá-lo a todas as pessoas. Um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de torná-la conhecida, que amor seria? A oração nos torna amigos íntimos de Jesus. Às vezes, perdemos o entusiasmo pela missão porque nos esquecemos de rezar ou rezamos mal e, com isto, vamos nos tornando desconhecidos de Jesus, indiferentes aos seu projeto. Portanto, nossos seminários precisam ser casas onde, verdadeiramente, se cultive a amizade com Jesus por meio da oração.

 

Uma segunda dimensão importante é a dimensão comunitária. Quando Jesus chama os seus discípulos, Ele os chama para que formem uma comunidade, para estarem junto com Ele. O processo de formação dos vocacionados ao sacerdócio, desde sua origem, tem um caráter eminentemente comunitário: o jovem é chamado do meio de uma comunidade, forma uma comunidade com seus irmãos de caminhada e, depois da ordenação, passa a servir numa comunidade. Portanto, o seminário precisa ser um contexto de comunidade educativa e formativa, pois é na comunidade do seminário que o missionário aprende “o que implica diálogo, serviço, humildade, obediência ao bispo, abertura para crescer em comunhão missionária com os presbíteros, diáconos, religiosos e leigos, servindo à unidade na diversidade”, como nos diz o Documento de Aparecida, no número 324. Se não consigo ver as necessidades pelas quais passam meus irmãos de caminhada, como poderei ver as necessidades das pessoas na missão? Logo, precisamos zelar para que o seminário seja, realmente, a nossa casa, onde vamos crescendo no convívio fraterno e aprendendo a cuidar uns dos outros.

 

Concluindo, retomo os pontos que apresentei no decorrer do texto. Primeiramente, lembremos sempre que a missão não é enfeite ou adorno, nem luxo e nem lixo na vida da Igreja; ela é essência. Não se pode falar na Igreja de Jesus Cristo sem falar em missão. Em segundo lugar, como está colocado na encíclica Evangelii gaudium e é retomado pela Ratio fundamentalis de 2016, a alegria do Evangelho é uma alegria missionária. Esse impulso missionário diz respeito, de modo ainda mais especial, àqueles que são chamados ao ministério sacerdotal, como fim e horizonte de toda a formação. E, para finalizar, a missão deve integrar todas as dimensões da formação, visto que a missão é a finalidade última de toda a formação. Só assim teremos padres com espírito missionário, membros de uma Igreja em saída, alegres anunciadores do Evangelho.

 

Seminarista da etapa da Teologia. Tem 28 anos e é natural de Caxias do Sul, da Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, de Galópolis. Reside no Seminário Maior São Lucas, em Porto Alegre, e cursa o 1º ano da Faculdade de Teologia, na PUCRS.