A Solenidade da Santa Mãe de Deus: um breve olhar histórico-litúrgico

O anúncio do anjo Gabriel trouxe a grande novidade para a vida de Maria e de toda a humanidade: “Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus” (Lc 1, 31). É o anúncio da maternidade divina de Maria. A jovenzinha de Nazaré foi agraciada por Deus para ser a mãe do seu Filho. Na crucificação do seu filho a ideia de maternidade aparece novamente. Jesus diz à sua mãe: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26), e depois ao discípulo amado: “Eis tua mãe” (Jo 19,27). O discípulo amado, atribuído pela tradição à João, parece simbolizar a todos os fieis, isto é, a toda a humanidade que está aberta ao acolhimento do amor de Deus. Maria, a nova Eva, simboliza a mãe da nova vida, do novo povo. É uma cena de natureza simbólica muito grande. Maria é dada por Jesus como “mãe” do discípulo, de todos nós revelando o amor divino que se derrama sobre os homens. Embora os textos bíblicos não apresentem muitas linhas sobre Maria, quando dela falam mostram profundamente sua atitude de escuta e serviço à Palavra de Deus, como podemos perceber no seu grande canto do Magnificat e que se transformou em um verdadeiro cântico da igreja que aos poucos nascia.

 

As primeiras comunidades cristãs foram se constituindo nesse clima afetivo e amoroso em relação à Maria, devendo-lhe piedade, elaborando orações e escritos. Nos textos dos primeiros padres da Igreja já é notória a menção à Mãe de Jesus, o carinho e veneração para com ela. Um dos textos litúrgicos mais antigos é a “Homilia sobre a Páscoa”, de Melitão de Sardes, da segunda metade do século II. Nessa homilia faz várias referências à Virgem, sempre relacionadas com Jesus: “...,revestiu-se da nossa natureza no seio da Virgem e fez-se homem...”, “Foi ele que encarnou no seio da Virgem...foi ele o cordeiro que não abriu a boca, o cordeiro imolado, nascido de Maria, cordeira sem mancha...”. Fica clara a questão da encarnação do Verbo no seio da Virgem. Outro texto, A Tradição Apostólica, de Hipólito de Roma, da segunda metade do século III, que apresenta a oração eucarística mais antiga que conhecemos, já menciona na celebração eucarística Maria como aquela da qual nasceu o Filho de Deus, mandado do céu pelo Pai. Ele nasce do Espírito Santo e da Virgem Maria. Posteriormente, as anáforas seguirão na mesma linha, fazendo referências à maternidade divina da Virgem de Nazaré. Outro documento não menos importante é o papiro grego datado do século III com a formulação litúrgica que faz referência ao que se conhece como o famoso Sub tuum praesidium, isto é, “Sob a vossa proteção”. Um pouco mais tarde, temos o hino Akathistós, composto provavelmente entre os séculos V e VI, o qual canta os grandes mistérios da Mãe de Deus.

 

Seguindo uma linha de desenvolvimento histórico da constituição do culto a Maria, o grande marco propulsor será o Concílio de Éfeso, realizado no Pentecostes de 431. O Concílio fora convocado para resolver um grande problema criado no Império por Nestório, o qual pregava que Maria não era Mãe de Deus, mas apenas do homem Jesus, chocando profundamente os fiéis, que já tinham presente a matriz teológica da maternidade divina de Maria. Para combater essa heresia, o Concílio proclamou como verdade de fé Maria  como “Theotókos”, isto é, Mãe de Deus. O título evoca sobretudo o mistério da encarnação do Verbo de Deus e a decorrência e fundamento de todas as glórias de Maria e a ela atribuídas. 

 

Os primeiros cristãos acolheram a definição dessa verdade de fé com toda alegria e começaram a erguer igrejas dedicadas a Mãe de Deus e a render-lhe culto. Em Roma, o papa Sixto III (432-440) dedicou a Maria uma grande basílica, Santa Maria Maior. Rapidamente seu culto se espalha pelas igrejas do oriente e posteriormente do ocidente. A Solenidade da Santa Mãe de Deus, atualmente celebrada, recupera a antiga memória que se fazia dela ainda no século VI no oriente e principalmente no século VIII, em que se celebrava na Igreja de Roma sob o título de Natale Sanctae Mariae, na oitava de natal.

 

No ano de 1931 celebrava-se o 15º centenário do Concílio de Éfeso, encerrado no dia 11 de outubro de 431. O papa Pio XI institui então a solenidade da Santa Mãe de Deus nesta data. A reforma litúrgica empreendida pelo Concílio, ao analisar o calendário litúrgico e no intento de organizar a celebração litúrgica do mistério de Cristo de forma mais orgânica e pedagógica, restaurou a solenidade para o dia 1º de janeiro, como era celebrada Roma nos primeiros séculos. Recordemos as palavras de Paulo VI, na Marialis Cultus, 5, quando assim escreve: “No ordenamento do período natalício, conforme foi recomposto, parece-nos que as atenções de todos se devem voltar para a reatada solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Esta, colocada como está, segundo o que aconselhava uso antigo da Urbe, no dia 1° de janeiro, destina-se a celebrar a parte tida por Maria neste mistério de salvação e, a exaltar a dignidade singular que daí advém para a "santa Mãe..., pela qual recebemos... o Autor da vida"; é, além disso, ocasião propícia para renovar a adoração ao recém-nascido "Príncipe da Paz", para ouvir ainda uma vez o grato anúncio angélico (cf. Lc 2,14), para implorar de Deus, tendo como medianeira a "Rainha da Paz", o dom supremo da paz. Por isso, na feliz coincidência da Oitava do Natal do Senhor com a data auspiciosa de 1° de janeiro, instituímos o Dia Mundial da Paz, que vai recebendo crescentes adesões e já matura nos corações de muitos homens frutos de paz”. 

 

Como se pode perceber, Paulo VI institui no dia 1º de janeiro também o Dia Mundial da Paz, dia em que se celebra a solenidade da Rainha da paz a qual trouxe ao mundo o Príncipe da Paz, temas aludidos na liturgia desta solenidade. Re-colocada no tempo do natal, na oitava do natal, a solenidade da Santa Mãe de Deus re-encontra seu lugar digno na liturgia da Igreja, expressando a íntima e profunda ligação com o mistério da encarnação do Filho e seu papel na economia da salvação. 

 

A primeira antífona de entrada, apresentada pelo Missal Romano, é um verso do “Poema Pascal’, do grande poeta cristão Sedúlio, datado do século V: “Salve, ó Santa Mãe de Deus, vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos eternos”. Sedúlio coloca a questão de modo teológico e litúrgico muito equilibrado, lembrando que o louvor à Maria pela sua maternidade divina está inseparavelmente ligado ao Filho, rei do universo, pelo qual e para o qual tudo foi criado, e a quem ela deu a luz. A segunda opção de antífona de entrada, de cunho bíblico (Is 9,2.6; Lç 1,33), faz referência ao nascimento do Filho, o qual será chamado de Príncipe da Paz e seu reino não terá fim: “Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós. Ele será chamado Admirável, Deus, Príncipe da Paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim.”

 

A liturgia da Palavra apresentada para esta solenidade trata, na primeira leitura, do livro de Nm 6.22-27. Trata-se de um texto de benção sacerdotal, contendo os bens destinados ao povo. Deus mostra seu rosto ao povo expressando assim uma profunda relação religiosa, de compaixão e amizade. E concede a sua paz, isto é, a vida em plenitude. Essa leitura faz referência explícita ao dia mundial da paz, lembrando que o Príncipe da Paz nasceu da Rainha da Paz a poucos dias e veio nos trazer a paz de Deus. A segunda leitura, Gl 4, 4-7, apresenta um testemunho muito antigo da comunidade cristã sobre a maternidade de Maria. Na plenitude do tempo, cumprindo as promessas messiânicas, Deus enviou seu Filho ao mundo, nascido de uma mulher e sob a lei. O Filho se insere na realidade humana para redimi-la. O evangelho de Lc 2, 16-21, embora trate de circuncisão de Jesus, retomando a realidade expressa na carta paulina, isto é, assumiu a condição humana vivendo sob a lei, não pode deixar de ser lido destacando o que faz referência a Maria. Ela está lá na manjedoura, ao lado do seu Filho, guardando inquieta em seu coração o que Deus operou em favor de seu povo por meio da sua entrega total e incondicional a Ele.

 

A eucologia do missal na solenidade, isto é, o conjunto de orações apresentadas para esta celebração, de modo particular na eucologia menor, que contempla a oração da coleta , sobre as oferendas e depois da comunhão, é um tanto modesta, mas apresenta a questão central referenciada ao mistério celebrado: a maternidade divina de Maria e seu Filho, e a fecundidade de seu ser virginal: “Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à humanidade a salvação eterna, dai-nos contar sempre com sua intercessão, pois ela nos trouxe o autor da vida...” (Coleta). “Ó Deus, que levais à perfeição os vossos dons, concedei aos vossos filhos, na festa da Mãe de Deus, que, alegrando-se com as primícias da vossa graça, possam alcançar a plenitude” (Sobre as oferendas). “Ó Deus de bondade, cheios de júbilo, recebemos os sacramentos celestes; concedei que eles nos conduzam à vida eterna, a nós que proclamamos a Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja” (Depois da Comunhão). Na oração depois da comunhão temos a referência explícita à Mãe de Deus, a Theotókos, e pelo dedo de Paulo VI, Mãe da Igreja. Na eucologia maior, que compreende o prefácio e a oração eucarística, temos no prefácio indicado já o título “A maternidade da Virgem Maria”. : “...À sombra do Espírito Santo, ela concebeu o vosso Filho único e, permanecendo virgem, deu ao mundo a luz eterna...”.

 

Paulo VI, no embalo da reforma conciliar, ao restaurar a celebração da solenidade da Mãe de Deus para a oitava de natal, isto é, aproximando-a do natal do Senhor, destacou o importante papel que Maria tem na história da salvação e também um ponto de equilíbrio para uma saudável mariologia e piedade popular: Maria deve ser vista sempre em referência ao Filho, como podemos constatar nas fórmulas litúrgicas desta solenidade. Ela aponta para o Filho, não para si mesma. Pastoralmente, talvez a data de 1º de janeiro, em virtude das festas de final de ano e período de férias, não favoreça muito a participação dos fiéis nesta primeira celebração do ano civil. É preciso também tomar cuidado para não tratar de um tema em detrimento de outro, dado que se tem o dia mundial da paz, a circuncisão de Jesus e é claro, a maternidade divina de Maria.  É um desafio, nesse sentido, fomentar a participação nesta que é a mais antiga festa em honra da Virgem Mãe de Deus.

 

Quais frutos espirituais podemos colher para a vida cristã a partir desta celebração? A Virgem Filha de Sião ensina-nos a sermos Igreja. Para Scheeben, teólogo alemão do século XIX, o mistério de Maria e da Igreja se iluminam de forma recíproca. Ela é o modelo tipológico enquanto atitude de acolhida da Palavra e saída de si mesma para servir, ou como nos tem ensinado o papa Francisco, a igreja com um hospital de campanha, em constante saída. O seu sim é na verdade sim a Jesus e ao seu Reino. Com este sim, ensina-nos a não nos determos em nós mesmos, pois nenhum ser humano acolheu tanto a Palavra de Deus em sua vida como Maria e ninguém a serviu tanto como Maria. É a igreja principiando, antes mesmo de sua institucionalização. A Igreja começa a nascer a partir desta atitude de acolhida de Deus que vem ao encontro do ser humano para salvá-lo do pecado e da morte, contrária a qualquer atitude de pecado, que priva o homem do comunitário. Ela nos pede que acolhamos seu Filho e o apresentemos às pessoas. A escola de Maria nos ensina a vivermos com Cristo e em Cristo em atitude de total doação e partilha das graças e dons que Deus nos concede. Quem frequenta essa escola é levado sempre mais à intimidade com Cristo, e com Cristo na graça do Espírito, ao Pai, inserido no mistério de amor do Deus cristão uno e trino, que tem por jeito de ser, doar-se, derramar-se ao ser humano, para no final entoar o mesmo cântico: “a minha alma glorifica o Senhor porque olhou para a humildade de sua serva.”

 

Referências:

ANTOLOGIA LITÚRGICA: textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. 2ª ed. Fátima-Portugal: Secretariado Nacional de Liturgia, 2015.
AUGÉ, Mathias [et. Al]. O Ano litúrgico: história, teologia e celebração. São Paulo: Paulinas, 1991 (Coleção Anamnesis). 
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COMENTÁRIOS À BÍBLIA LITÚRGICA. Palheira-Portugal: Grafica de Coimbra.
GRÜN, Anselm. Jesus porta para a vida: o evangelho de João. São Paulo: Loyola, 2006.
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SARTORI, Domenico; TRIACCA, Achille M. DICIONÁRIO DE LITURGIA. São Paulo: Paulus, 1992.
RATZINGER, Joseph; VON BALTHASAR, Urs. Maria: primeira igreja. Fátima-Portugal: Grafica de Coimbra.