As fases do luto de Jesus

Luto é o processo de absorção do impacto causado pela notícia da morte (ocorrida ou iminente), no qual a pessoa enlutada se adequa à nova realidade e ao novo modo de viver. É o itinerário pelo qual a pessoa passa até conseguir elaborar a perda. Há casos em que o luto é iniciado antes da morte, e a pessoa pode fazer luto por si mesma, quando a morte iminente é a sua. As fases acontecem em todos os casos, porém o processo pode ser mais rápido para alguns ou as fases podem acontecer simultaneamente para outros.

 

"O luto acontece para todos, também Jesus vivenciou as fases do luto antecipatório por sua própria morte, como demonstram as narrativas dos discursos e as posturas de Jesus, que são intensificadas no período entre a entrada em Jerusalém, na sua última semana de vida, e a sua morte." (cf. Da Pedra À Nuvem: um itinerário tanatológico).

 

O isolamento não é fuga, mas uma necessidade de introspecção para assimilar as novas condições. O encontro com seu eu, com suas escolhas e com sua consciência a respeito da terminalidade humana são necessários para que o enlutado cumpra as fases que se seguem, sem ser por elas derrotado. Seguindo a normalidade de um luto antecipatório por si mesmo, Jesus se afasta e se recolhe em oração, ante a certeza da aproximação da morte (cf. Mt 26, 36-38.40-41; Mc 14, 32-34.38-41; Lc 22, 39-41.45-46).

 

A fase seguinte apresenta uma série de emoções que se sucedem, intercalam-se ou se misturam. A palavra raiva que denomina este estágio abarca uma gama imensa de emoções, sentimentos e estados de ânimo (tristeza, medo, angústia, sofrimento, sensação de abandono e solidão, entre tantas outras). Por isso, é importante tratá-las, não como defeito de caráter, menos-valia ou espiritualidade deficitária, mas como expressões genuínas do instinto mais básico do ser humano: a luta pela vida. No processo de luto por si mesmo, Jesus exprime total solidariedade e pertença à humanidade quando diz:"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mc 15,34; Mt 27,46). Nos dias que antecederam sua morte, uma sequência de acontecimentos demonstrou um estado de ânimo diferente do que ele usualmente externava, especialmente evidente em três episódios: a profecia da destruição do Templo, a expulsão dos vendedores e cambistas do Templo, e a maldição à figueira.

 

A terceira fase do luto é breve e, muitas vezes, passa despercebida àqueles que estão de fora ou mesmo aos que são próximos. Esta quase invisibilidade da fase"barganha" deve-se ao fato de ser um movimento que, quase sempre, acontece em foro íntimo e silencioso.

 

Esta fase no processo de luto de Jesus aparece quando, na madrugada que antecedeu a sua prisão, tortura e morte, ciente do que se avizinhava, Jesus realizou um rito de passagem e de despedida, a última ceia, enquanto celebrava, antecipadamente, a Páscoa.Tendo terminado a ceia, "depois de terem cantado salmos" (Mc 14,26), o hallel da salmodia hebraica, como o rito pascal prescreve, foi para o monte das Oliveiras, com seus discípulos.

 

Nas horas que sucederam, Jesus rezou intensamente e direcionou a Deus uma oração singular e inédita, na qual apresenta seu extremo sofrimento e consciência das intenções cruéis que seus inimigos têm a seu respeito e, como quem averigua uma possibilidade alternativa, suplica ao Pai dizendo: "Tudo é possível para ti! Afasta de mim este cálice!" (Mc 14,36).

 

Os quatro evangelhos apresentam esta oração de Jesus, porém cada narrativa segue a ótica do autor e as impressões da comunidade que legou a tradição: Mt 26,39.42.43-44; Mc 14, 35-36; Lc 22, 41-42; Jo 12, 27.

 

A fase seguinte à barganha é a da depressão, caracterizada pela tristeza e pela angústia. Sentimento que Jesus partilha com seus discípulos afirmando ser esta "uma tristeza de morte" (Mt 26,38).

 

O misto de expectativa sobre o que aconteceria em breve, tristeza e angústia de Jesus foi tão extremo que é dito que "tomado de angústia, Jesus rezava com mais insistência. Seu suor se tornou como gotas de sangue, que caíam no chão". Segundo a narrativa de Lucas, Jesus teve um quadro de hematidrose, que não é um milagre, nem algo desejável. Ao contrário. As consequências físicas desta exaustão emocional e psíquica provoca o rompimento dos vasos sanguíneos, e a hemorragia unida ao excessivo suor são de desidratação, depressão e quadro severo de extenuação.

 

A aceitação é o último estágio da elaboração do luto, que acontece quando a realidade da morte e a paz se encontram. Jesus elaborou o luto pela sua morte ao longo de seus dias e não apenas nos últimos momentos. Isso é demonstrado quando:

 

Ora, particularmente por Pedro (Lc 22,32), por seus discípulos e seguidores em geral, e por todos aqueles que virão a crer nele (Jo 17).

 

Acalma seus discípulos para uma possível comoção, pelo fato de seu cadáver não receber os cuidados que, tradicionalmente, eram dispensados a um morto. Faz isso apresentando o gesto de unção que Maria faz para ele como sendo um rito funerário antecipado (Jo 12,7).

 

Despede-se fazendo o rito de passagem e, simultaneamente, o rito de presença e de permanência na última ceia (Lc 22,14-20; Mt 26,18-29; Mc 14,12-25; Jo 13; cf. 1Cor 11,23-26).

 

Consola antecipadamente seus discípulos, por meio do discurso de despedida narrado no Evangelho de João, através do qual os conforta pelos sentimentos de tristeza, questionamento e perda que emergem no luto. Jesus diz: "Vocês são meus amigos, e o amigo dá a vida pelo outro; digo isso para que vocês não fiquem escandalizados; por pouco tempo ainda estarei com vocês, pois vou para junto daquele que me enviou e, por isso, vocês se entristecerão, chorarão e se lamentarão, entretanto é bom para vocês que eu vá. Para onde eu vou, vocês não poderão ir, mas vou preparar um lugar e virei para levá-los comigo; daqui a pouco vocês não mais me verão, mas em pouco tempo me verão novamente. A morte é como o nascimento: o parto é sofrido, mas, quando nasce a criança, os sofrimentos são esquecidos".

 

Indica uma reconfiguração dos relacionamentos familiares e comunitários, quando diz para sua mãe e para João: "Eis o teu filho [...] eis a tua mãe" (Jo19,26-27).

 

Afirma não estar sozinho, mesmo que os seus amigos o abandonem, pois o Pai está com ele (Jo 16,32). Em nenhum momento encontramos Jesus dizendo ter sido abandonado pelo Pai. Conforme vimos anteriormente, quando Jesus lança o grito-pergunta "por que me abandonaste?", é registrado "pela primeira e única vez nos evangelhos", Jesus chamando a lahweh de Deus, e não de Pai.

 

Fazendo uso da analogia do grão de trigo (Jo 12,24), Jesus apresenta uma leitura sobre a morte e a solidão, que segue na contramão do popularmente aceito. Ele não morre por estar sozinho, mas morre para não ficar sozinho. Morto e sepultado, como o grão de trigo na terra, ele voltará à vida de modo novo, e frutificará. Assume a sua condição mortal aceitando as consequências de suas escolhas, que lhe renderam inimigos capazes de impor-lhe a morte, mas que não conseguiram matar a sua opção radical pela vida.

 

Entrega a sua vida, e declara esta absoluta liberdade de fazê-lo quando, na cruz, reporta-se a ao Pai, dizendo: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito"(Lc 23,46). Jesus entrega sua vida nas mãos de Deus, pois é de Deus que ela procede. Dar a vida pelo outro se entregando a Deus qualifica a própria morte e toda a vida que aconteceu antes dela (cf. Jo 12,25).

 

Perdoa seus inimigos e carrascos. A mais evidente demonstração de elaboração do luto e aceitação da morte é o perdão, porque sem esse não há paz. Pode o enlutado resignar-se à sua condição, o que significa que foi vencido por ela e não que esteja em paz com ela. Jesus perdoa, intercede e reza pelos que o executam, quando diz: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem" (Lc 23,34).

 

A aceitação de Jesus é consequência e consciência. Consequência do itinerário e do processo de resolução dos conflitos ao longo da sua história pessoal e social. Consciência do processo e, especialmente, de si mesmo, da sua missão e da sua condição humana.

 

Querido leitor, o luto não é defeito nem algo a ser omitido. Todos passam por ele, com maior ou menor impacto, pois o luto tem a medida do investimento emocional feito na pessoa ou na vida que morre. Sofrer é normal. Passar pelas fases do luto até elaborá-lo é humano, tão humano que o próprio Jesus o vivenciou!

 

A autora, colaboradora desta Revista, é Dra. Tanatóloga e teóloga

 

revistarainha.com.br - Abril 2017.