Esse tal de purgatório

É comum quando estamos passando por um grande sofrimento alguém que, com a melhor das intenções, tenta nos consolar com a seguinte frase: “Calma, o que é bom é provado no fogo!”. Ou ainda podem nos sugerir, se é um conhecedor nato da Escritura, o texto bíblico de 1Cor 3, 12-15 como consolo para quando se está num certo vale de lágrimas. Aqui pode-se perceber uma possível fundamentação bíblica e antropológica do que, no imaginário popular, conhecemos por Purgatório e que indica um caminho para os que creem que a morte neste mundo não tem a última palavra. A experiência da vida em plenitude sempre é mais forte que a experiência da morte, o que não exclui a complexidade e a dor para aqueles que passam por ela. Mas, então, o que é esse tal de Purgatório?


Na Teologia cristã católica é um processo de purificação. É como se fosse uma segunda chance para estar repleto e cheio da ternura e da misericórdia do Pai. Sua expressão artística e que ainda hoje alimenta o imaginário de muitas pessoas ganhou rosto e destaque no período medieval com muito fogo, anjos, Nossa Senhora, Jesus como o grande Juíz, etc... basta procurarmos no Google e veremos inúmeras expressões deste tipo. 

 

É o Purgatório quem irá estruturar a cultura medieval e dará a dinâmica do tempo em séculos e séculos de Cristandade. Entretanto, sua raiz antecede o tempo do apogeu de sua representação. Teologicamente, para compreendermos bem essa realidade devemos levar em conta aquilo que no Credo chamamos de Comunhão dos Santos, isto é, quando nós rezamos pelos falecidos e eles intercedem por nós. Não cabe a nós julgarmos pois somente Cristo fará no Dia do Juízo, porém está ao nosso alcance rezar pela Páscoa (passagem) daqueles que já não estão entre nós iluminados pela Páscoa de Jesus. Portanto, o Purgatório não é uma realidade de desesperança (como é o Inferno), mas de esperança, uma espécie de ante-sala do Céu. 

 

Que elementos temos hoje que nos ajudam a compreender isso tudo? Evidente que o Purgatório, assim como tantas outras coisas foi secularizado, já não tem a mesma roupagem da Idade Média, mas o sentido permanece. E aparece em grande estilo quando encontramos mediadores que nos ajudam a purgar nossos problemas: psicólogos, familiares, amigos e até mesmo os padres em seus confessionários ou salas de aconselhamento pastoral. Dentro ou fora da Igreja, pôde-se encontrar mediadores que acolhem e ouvem os problemas das pessoas, criando assim uma ante-sala do Céu antes que a pessoa morra para que isso aconteça. Eis o Purgatório secularizado do século XXI, onde já não há mais fogo, mas poltronas confortáveis que acolham as almas que precisam da paciência humana para resolver os fatos que os fizeram perder as esperanças nesta vida e também na eterna.

 

A realidade do Purgatório é a realidade do amadurecimento e isso é bom e louvável. Purgar é amadurecer e esperar, não com desilusão e de braços cruzados, mas com alegria e esperança, uma vez que o critério para o Purgatório e a Vida Eterna sempre será a misericórdia e a graça divina que podem ser experimentadas no coração da comunidade cristã.

Seminarista da Teologia da Diocese de Caxias do Sul