Ética da responsabilidade e a casa comum

Considerações iniciais

 

Este artigo nortear-se-á pela Carta Encíclica Papal, Laudato Si, na qual o Papa Francisco aborda a questão do cuidado da Casa Comum, e pela obra O princípio da responsabilidade, na qual Hans Jonas elabora um ensaio acerca de uma ética para a civilização tecnológica. Trata-se de uma reflexão embasada nesses dois escritos, porque, segundo nosso parecer, Jonas e o Papa Francisco dão ao tema amplitude e espectro merecedor de atenção, análise e sistematização reflexiva. Este texto não se configura em simples constatação e descrição, mas, antes, de uma análise, cujo intento é chamar a atenção para uma exigente e inadiável atitude responsável, tanto por parte das pessoas como também das instituições, corporações e das políticas públicas governamentais.

 

As reflexões acerca da ética da responsabilidade situam-se na tentativa de pensar a responsabilidade de todos em escala planetária. Exige-se, para tanto, uma mudança exigente e responsável dos hábitos adquiridos e solidificados à luz da concepção da razão instrumental, centralizada no antropocentrismo de um projeto moderno inacabado, de acordo com a terminologia de Habermas. Entretanto, constatando-se o esgotamento acentuado e preocupante do meio ambiente, das mais diversas áreas do conhecimento emergem tentativas de novas concepções e reflexões, cujo acento e foco não estão mais no ser humano, como centro irradiador de sentido, mas na sobrevivência da humanidade enquanto tal e do equilíbrio do meio ambiente. No âmago desta reflexão, encontra-se a relação do ser humano consigo mesmo, com os seus semelhantes, com o meio ambiente e com todos os seres vivos.

 

Caso o ser humano não consiga compreender-se como parte integrante do meio ambiente, ele não será capaz de estabelecer uma relação de responsabilidade e cuidado, permanecendo, por conseguinte, em uma relação instrumental de poder e dominação. O ser humano, no decorrer da História, foi se compreendendo como detentor do poder de intervir na natureza e dela extrair e exprimir tudo quanto ele quisesse e pudesse. Essa lógica está fadada ao fracasso, uma vez ser por todos muito bem conhecida a tensão existente entre, por um lado, os recursos naturais disponíveis, já bem escassos por sinal, e, por outro lado, o desejo e o afã exploratórios, quase sempre marcados pela insaciabilidade do ser humano. Afirma o Papa Francisco a esse respeito: 

 

O modo como realmente a humanidade assumiu a tecnologia e o seu desenvolvimento juntamente com um paradigma homogêneo e unidimensional. Neste paradigma, sobressai uma concepção do sujeito que progressivamente, no processo lógico-racional, compreende e assim se apropria do objeto que se encontra fora. Um tal sujeito desenvolve-se ao estabelecer o método científico com a sua experimentação, que já é explicitamente uma técnica de posse, domínio e transformação. É como se o sujeito tivesse à sua frente a realidade informe totalmente disponível para a manipulação. Sempre se verificou a intervenção do ser humano sobre a natureza, mas durante muito tempo teve a característica de acompanhar, secundar as possibilidades oferecidas pelas próprias coisas; tratava-se de receber o que a realidade natural por si permitia, como que estendendo a mão. Mas, agora, o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente. (2015, n. 4, p. 10).

 

As influências e as repercussões do sistema tecnocrático na vida das pessoas e no modo das mesmas se relacionarem e atuarem em sociedade são vastas, pois elas condicionam “[...] os estilos de vida e orientam as possibilidades sociais na linha dos interesses de determinados grupos de poder”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 4, p. 10). O sistema tecnocrático tornou-se não apenas dominante, mas, também, hegemônico e o ser humano tem dificuldade de dizer não a essa nova forma de viver e conviver, impressa pelo e no ritmo da vida social e cultural, ou seja, tornou-se difícil conseguir levar adiante a possibilidade de pensar e efetivar uma nova forma de relacionar-se que não seja outro senão o considerado espectro tecnocrático hegemônico. Assim, “[...] os efeitos da aplicação deste modelo a toda a realidade, humana e social, constatam-se na degradação do meio ambiente, mas isto é apenas um sinal do reducionismo que afeta a vida humana e a sociedade em todas as suas dimensões”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 4, p. 10). A seguir, apresenta-se a reflexão deste texto articulado em dois momentos e a partir de dois conceitos-chave, a saber, o cuidado e a responsabilidade com a Casa Comum.

 

O cuidado com a casa comum


A encíclica Laudato Si é uma preciosidade para a reflexão atual acerca do cuidado com a Casa Comum. Preciosidade não pela sistematização de dados, cálculos e argumentos científicos detalhados, pormenorizados e inquestionáveis a respeito da situação atual do Planeta Terra, mas, sobremaneira, por conta do modo como a reflexão é conduzida e de como o leitor de boa vontade é convidado a assumir como seu o problema da Casa Comum. No primeiro capítulo da encíclica Laudato Si, Papa Francisco apresenta uma panorâmica geral da situação da nossa Casa Comum. Segundo ele, seis são os principais pontos constatados e merecedores de muita atenção: primeiro, o Planeta sofre devido a uma grande poluição, acarretando mudanças climáticas permanentes; segundo, a contaminação das águas, sobretudo, no que se refere à crescente possibilidade de falta de água potável e com qualidade para todos; terceiro, a perda de biodiversidade, acarretando a extinção de algumas espécies do Planeta; quarto, a questão da deterioração da qualidade de vida e a degradação social, relacionandoa, sobretudo, com a dignidade da vida humana, na qual nem sempre a vida humana se desenvolve integralmente e com condições dignas e com qualidade; quinto, a desigualdade planetária, evidenciando a não existência de uma garantia de políticas capazes de promover igualdade social, cultural e política; sexto, decorrente dos anteriores, a falta de encaminhamentos e respostas eficientes para os problemas ambientais. Diante dessa situação bastante crítica, é urgente analisar e enfrentar a realidade como ela se apresenta e assumir uma postura ética de responsabilidade.


No terceiro capítulo, Papa Francisco apresenta a raiz humana da crise ecológica, na qual ele parte de uma análise da situação atual, buscando dialogar com a filosofia e com as ciências humanas, e o mais importante, buscando “[...] chegar às raízes da situação atual, de modo a individuar não apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas”, (2015, n.15, p. 17). Se, por um lado, o avanço das tecnologias trouxe muitas facilidades e inovações importantes ao ser humano, por outro lado o mesmo trouxe mais poder às “mãos humanas”, sendo que este – o poder –, quando nas mãos de pessoas ambiciosas e sedentas de mais e mais poder, pode ocasionar muitos entraves e dificuldades ao relacionamento humano. Segundo Francisco, “[...] a humanidade entrou numa nova era, em que o poder da tecnologia nos põe diante de uma encruzilhada”. (2015, n. 102, p. 65), lembrando, por sua vez, que, em estando em encruzilhada, é urgente decidir para qual lado pender e direcionar-se. Citam-se, a seguir, duas passagens do Papa Francisco, a fim de mencionar a tensão existente entre os possíveis benefícios e os possíveis malefícios das tecnologias. Quanto aos benefícios, afirma o Papa Francisco:


Somos herdeiros de dois séculos de ondas enormes de mudanças: a máquina a vapor, a ferrovia, o telégrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática e, mais recentemente, a revolução digital, a robótica, as biotecnologias e as nanotecnologias. É justo que nos alegremos com estes progressos e nos entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes, porque a ciência e a tecnologia são um produto estupendo da criatividade humana [...]. A tecnologia deu remédio a inúmeros males, que afligiam e limitavam o ser humano. Não podemos deixar de apreciar e agradecer os progressos alcançados especialmente na medicina, engenharia e comunicações. (2015, n.102, p. 65).

 

Quanto aos possíveis malefícios, salienta o Papa Francisco:

 

Não podemos, porém, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos, nos dão um poder tremendo. Ou melhor: dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder econômico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do gênero humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem, sobretudo se considera a maneira como o está a fazer. Basta lembrar as bombas atômicas lançadas em pleno século XX, bem como a grande exibição de tecnologia ostentada pelo nazismo, o comunismo e outros regimes totalitários e que serviu para o extermínio de milhões de pessoas, sem esquecer que hoje a guerra dispõe de instrumentos cada vez mais mortíferos. Nas mãos de quem está e pode chegar a estar tanto poder? É tremendamente arriscado que resida numa pequena parte da humanidade. (2015, n. 104, p. 66).

 

O avanço da tecnologia e da ciência apresenta-se, no mínimo, paradoxal. Ele oferece ao ser humano prodígios e benefícios cada vez mais avançados, mais ousados, mas, também, em contrapartida, presenteia o ser humano com um poder, que, por vezes, apresenta dificuldades e bifurcações, tanto no que se refere à dificuldade de tomada de decisão, como, também, na perspectiva de saber mais exatamente o melhor dos caminhos a traçar, e, por conseguinte, seguir. A partir do pensamento e da concepção moderna de leitura e análise do agir humano no mundo, desenvolveu-se uma compreensão antropocêntrica exacerbada, isto é, em que o ser humano assume o seu estar-no-mundo não mais dado a pensar-se como dependente de alguma instância transcendental e de submeter-se às regras de convivência, mas, especialmente, e tão somente, como autônomo e autárquico. O Papa Francisco, dialogando com as ciências e com a filosofia (2015, n.135, p. 84), ressalta a urgência de haver um diálogo entre as diversas áreas do conhecimento. É necessário assegurar “[...] um debate científico e social que seja responsável e amplo, capaz de considerar toda a informação disponível e chamar as coisas pelo seu nome”, sendo que, deste debate responsável decorreria uma atitude capaz de exigir “[...] pelo menos um maior esforço para financiar distintas linhas de pesquisa autônoma e interdisciplinar que possam trazer nova luz [...]”, em face da avassaladora crise atual. 

 

Por sua vez, com Jonas (1903-1993), buscam-se apontamentos referentes ao conceito responsabilidade, haja vista a sua contribuição teórica buscar responder aos desafios trazidos pela civilização científica e tecnológica. Ao se tratar da ética da responsabilidade, percebe-se que a discussão tem buscado deslocar o acento antropocêntrico que caracterizaria a tradição ética do Ocidente para o da responsabilidade comum de todos, em uma relação de convivência entre todos os seres vivos. A discussão em torno da ética da responsabilidade caracteriza-se, portanto, como rompimento com a primazia dada pela tradição filosófica ao viés de cunho antropocêntrico. Segundo Jonas, as éticas fundamentadas no sujeito já não conseguem dialogar e enfrentar a complexidade das questões envoltas nesta nova época dominada pela ciência e pela tecnologia, não estando em condições de enfrentar os desafios emergentes e decorrentes dos avanços técnico-científicos. Urge, pois, a busca por reflexão capaz de enfrentar, racional e razoavelmente, os desafios que a ciência e tecnologia irrompem e problematizam. 

 

Sobre a primazia do paradigma antropocêntrico, o Papa Francisco na Laudato Si é contundente ao apontar o desrespeito do ser humano ao Planeta Terra. Ele argumenta que o Planeta foi maltratado e até ofendido pelos seres humanos que agiram de forma, muitas vezes, irresponsável e inconsequente. Segundo o Papa Francisco, o ser humano tem esquecido que depende da Terra para sobreviver, na medida em que ele precisa do ar para respirar e da água para beber. Referindo-se ao texto papal de João XXIII, Pacem in terris (1963), o Papa Francisco sustenta que a crise atual é “[...] a consequência dramática da atividade descontrolada do ser humano” (2015, n. 4, p. 10); isto é, a crise ambiental vem acompanhada de uma crise antropológica. Dessa maneira, torna-se ainda mais
importante discutir a respeito de tais questões, uma vez que a vida de todos os seres vivos necessita de recursos naturais.

 

Na crise ecológica atual, o que está em jogo não é apenas o futuro do Planeta, mas a própria dignidade da vida humana. Constata-se uma crise ecológica que se caracteriza como sendo uma crise ética, cultural e espiritual. Nesse sentido, existe uma crise humana, e assim “[...] para nada serviria descrever os sintomas, se não reconhecêssemos a raiz humana da crise ecológica”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 102, p. 65). Caracterizando-se, por conseguinte, a presente crise como uma crise também humana, evidencia-se como imprescindível ao ser humano redescobrir sua posição no mundo, como diria Max Scheler (1874-1928), e, também, sua dignidade, pois a crise do antropocentrismo tem suas decorrentes consequências no convívio da Casa Comum e, diante disso, é preciso um desenvolvimento humano mais saudável e sustentável, sobretudo, no que diz respeito ao cuidado com a natureza, pois com a exacerbação da concepção antropocêntrica, no que se referiria ao cuidado com o Planeta, ficou “[...] a impressão de que o cuidado da natureza fosse atividade de fracos. Mas a interpretação correta do conceito de ser humano como senhor do universo é entendê-lo no sentido de administrador responsável”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 116, p. 73). Urge, pois, como que uma espécie de “revolução copernicana” no que tange à relação com a natureza e com todos os seres vivos. Eis como se expressa o Papa Francisco:


Nos tempos modernos, verificou-se um notável excesso antropocêntrico, que  hoje, com outra roupagem, continua a minar toda a referência a algo de comum e qualquer tentativa de reforçar os laços sociais. Por isso, chegou a hora de prestar novamente atenção à realidade com os limites que a mesma impõe e que, por sua vez, constituem a possibilidade dum desenvolvimento humano e social mais saudável e fecundo. (2015, n. 116, p. 73). 

 

Segundo ele, “[...] um antropocentrismo desordenado gera um estilo de vida desordenado”. (2015, n. 122, p. 76). Ou seja, gera uma relação de domínio com a natureza, desembocando em uma força permanente de domínio e exploração. Todavia, para exigir que o ser humano assuma uma relação de responsabilidade com a natureza, é preciso que ele se compreenda antes como alguém com capacidades de conhecimento, vontade, liberdade e responsabilidade, tendo consciência do compromisso a ser assumido, no que tange ao cuidado com sua Casa Comum, porque “[...] não haverá uma nova relação com a natureza, sem um novo ser humano. Não há uma ecologia sem uma adequada antropologia”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 118, p. 74). Portanto, é imprescindível reconhecer o valor intrínseco à vida humana e, também, à vida do Planeta, no qual todos os seres vivos e, por suposto, também o homem estão, íntima e intrinsecamente, não apenas relacionados, mas imbricados. Em outras palavras, mais do que nunca e como nunca dantes, tem-se consciência de que não há outra via senão a do cuidado responsável com a vida da Casa Comum. 

 

A crítica do antropocentrismo desordenado não deveria deixar em segundo plano também o valor das relações entre as pessoas. Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 119, p. 75).

 

Para o Papa Francisco “[...] nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem, sobretudo se se considera a maneira como o está a fazer”. (2015, n. 104, p. 66). Ou seja, a humanidade tem em seu domínio avanços e facilidades inimagináveis outrora. No entanto, paradoxalmente, em nenhum outro momento a complexidade alcançada, talvez, tenha conseguido incapacitar e dificultar tanto a resolução de alguns problemas, tais como as injustiças abissais entre ricos e pobres, os ganhos e lucros exorbitantes de alguns poucos, em detrimento do empobrecimento de maiorias muito expressivas. Poder-se-ia afirmar: 


Estamos todos convencidos de que vivemos na idade da técnica, de cujos benefícios em termos de bens e espaços de liberdade. Somos mais livres do que os homens primitivos porque dispomos de mais campos de atuação. Os lamentos e as desafeições em relação ao nosso tempo têm algo de patético. Mas, na facilidade com que utilizamos os instrumentos e serviços que encurtam o espaço e o tempo, amenizam a dor, tornam ineficazes as normas sobre as quais se assentam todas as morais, essa facilidade leva-nos ao risco de não nos questionarmos se o nosso modo de ser homens não é por demais antigo para viver na idade da técnica, que não nós mas a abstração da nossa mente criou, obrigando-nos – com uma obrigação mais forte do que aquela imposta por todas as morais que já foram escritas durante a história – a entrar nessa idade e dela participar. (GALIMBERTI, 2006, p. 7).  


Dito de outra forma, em nenhum outro momento da História o ser humano, como humanidade, acumulou e esteve ao seu alcance tanto poder, mas, ao mesmo tempo, que o impossibilita de solucionar problemas e abismos, há muito abertos e ainda não resolvidos e, por sinal, cada vez mais estigmatizados e necrosados em boa parte da humanidade. Vejam-se, por exemplo, duas situações curiosas. Perceba-se o caso de diversos tipos de fundamentalismos cada vez mais presentes e determinantes em nossas sociedades e a situação da desproporcionalidade injusta e pecaminosa de salários, constatada entre as diferentes profissões e populações. Não houve, portanto, um desenvolvimento integral do ser humano e proporcional a toda humanidade, pois “[...] o homem moderno não foi educado para o reto uso do poder, porque o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência”. (2015, n.105, p. 67). Trata-se, pois, de refletir, mais detalhadamente, sobre a responsabilidade a que todos são convidados a assumir perante a vida do Planeta Terra.


A responsabilidade com a casa comum

 

Verifica-se, nos tempos hodiernos, uma crise na concepção de responsabilidade, sobretudo, de uma responsabilidade ética. Jonas centra sua preocupação em mostrar que é preciso pensar uma ética da responsabilidade com a qual e partir da qual todos os seres humanos possam estar envolvidos, sobremaneira, para que consigam viver uma relação de respeito com todos os seres vivos. Ao postular o princípio da responsabilidade, Jonas preocupa-se em elucidar um princípio ético que consiga dar respostas para a civilização tecnológica, marcada, sobretudo, pela ciência e pela técnica. Sua tentativa é mostrar a missão a que todo ser humano está não apenas impulsionado, mas convocado a assumir. 

 

Reconhecer a ignorância torna-se, então, o outro lado da obrigação do saber, e com isso torna-se uma parte da ética que deve instruir o autocontrole, cada vez mais necessário, sobre o nosso excessivo poder. Nenhuma ética anterior vira-se obrigada a considerar a condição global da vida humana e o futuro distante, inclusive a existência da espécie. O fato de que hoje eles estejam em jogo exige, numa palavra, uma nova concepção de direitos e deveres, para a qual nenhuma ética e metafísica antiga pode sequer oferecer os princípios, quanto mais uma doutrina acabada. (JONAS, 2006, p. 41).  

 

Jonas, ao propor o princípio da responsabilidade, como sendo um princípio ético para a civilização tecnológica, chama a atenção para o princípio responsabilidade, devido ao espectro abrangente que ele encerra. Trata-se de um conceito englobante de todas as formas de vida no Planeta Terra. E, por sua vez, o Papa Francisco, aproximando-se da preocupação de Jonas, por um lado, mas, impulsionado, também, pela teologia da criação, por outro lado, lembra que nenhum projeto no que diz respeito ao cuidado com a Casa Comum poderá ser eficaz, se não partir da responsabilidade. Então, se, para Jonas, o princípio da responsabilidade precisa dar conta de uma ética voltada para o diálogo com a técnica e com a ciência, da mesma maneira, para o Papa Francisco, urge dar-se
conta de que “[...] é preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 52, p. 36).


O Papa Francisco propõe uma ética da responsabilidade com o Planeta Terra, apresentando uma ecologia integral como caminho a ser seguido, levando em consideração os fatores ambiental, econômico, social e cultural. É imprescindível assumir um novo comportamento e uma nova atitude com relação à promoção do bem comum. Cabe ainda destacar que a responsabilidade, tanto para Jonas, como para o Papa Francisco, está focada em uma eminente preocupação com as gerações futuras. É preciso pensar, segundo o Papa Francisco e Jonas, não apenas com e na geração atual, mas, também, com e nas gerações futuras. É urgente a preocupação com o “patrimônio ecológico” a ser preservado e entregue às gerações vindouras. Não restam dúvidas a respeito do foco dos referidos autores para o futuro da humanidade e da Casa Comum. Urge, por conseguinte, reverter a lógica do poder e do domínio antropocêntricos e dar condições à plausibilidade de fundamentação de uma ética responsável com a vida de todos os seres vivos no Planeta. 

 

A questão posta é a de pensar uma nova relação do ser humano com o Planeta Terra, que garanta a sobrevivência do mesmo e a possibilidade de vida às futuras gerações. O Papa Francisco, guiado pelas narrações bíblicas, mostra que “[...] a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra”. (2015, n. 66, p. 45). Segundo o Pontífice, no caso de essas três dimensões relacionais não estarem em harmonia, a consequência mais fácil e iminente de ser arrolada ao processo de crise será a do projeto de domínio e poder do ser humano com relação à natureza, uma vez que, segundo Max Weber (1864-1920), após e com o processo desencadeado, sobretudo, com e na Modernidade do denominado
“desencantamento do mundo”, ou então, da “dessacralização da natureza”, as riquezas naturais estariam no domínio privativo do uso e abuso de seus benefícios. 

 

O futuro da vida no Planeta Terra corre risco devido ao mal que os seres humanos provocaram em face de sua irresponsabilidade no uso de bens naturais, agindo como que “[...] proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 2, p. 09). Diante da crise na qual a humanidade se encontra, é candente a necessidade de uma ética da responsabilidade, que garanta a sobrevivência de todos os seres vivos. É urgente o compromisso com a Casa Comum. O cuidado para a construção do futuro de nosso Planeta deve ser a principal preocupação de toda a família humana, buscando um desenvolvimento sustentável e integral, preocupando-se em cuidar da vida do Planeta e do ser humano. A esse respeito, Papa Francisco apresenta o conceito de bem comum, uma vez que acredita estar intrinsecamente conectado à ecologia humana. O ensejo do Papa Francisco é mostrar que “[...] a ecologia humana é inseparável da noção de bem comum, princípio que desempenha um papel central e unificador na ética social”. (2015, n. 156, p. 94). O conceito de bem comum torna-se importante, pois ele sustenta um respeito pela pessoa humana e almeja um desenvolvimento integral, que também leva em conta o cuidado ao Planeta e à sua preservação. O caminho da ecologia integral implica reconhecer uma nova forma de relação do ser humano, e esse caminho passa pelo princípio de bem comum e o da justiça entre as gerações. Sobre uma nova cultura ecológica e um novo estilo de vida, afirma o Papa Francisco: 

 

A cultura ecológica não se pode reduzir a uma série de respostas urgentes e parciais para os problemas que vão surgindo à volta da degradação ambiental, do esgotamento das reservas naturais e da poluição. Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático. Caso contrário, até as melhores iniciativas ecologistas podem acabar bloqueadas na mesma lógica globalizada. Buscar apenas um remédio técnico para cada problema ambiental que aparece, é isolar coisas que, na realidade, estão interligadas e esconder os problemas verdadeiros e mais profundos do sistema mundial. (2015, n. 111, p. 71). 

O processo civilizatório trouxe para a humanidade um grande desenvolvimento técnico e científico, acarretando assim um problema de análise e diálogo com as áreas da ciência e da ética. Ante tal desafio, Jonas apresenta um imperativo ético, capaz de levar em consideração e abranger a discussão acerca dos grandes desafios, sobretudo, ambientais atuais e futuros, alicerçados sobre a tese basilar da urgência de mudança no comportamento humano, especialmente, na relação que se estabelecerá com o meio ambiente, uma vez ser urgente ao ser humano a capacidade de mudança de seus hábitos e atitudes perante a vida de todos os seres vivos e do Planeta Terra, considerando-o, por assim dizer, a Casa Comum. Eis o imperativo ético segundo Jonas: 


Um imperativo adequado ao novo tipo de agir humano e voltado para o novo tipo de sujeito atuante deveria ser mais ou menos assim: “Aja de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra”; ou, expresso negativamente: “Aja de modo a que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal vida”; ou, simplesmente: “Não ponha em perigo as condições necessárias para a conservação indefinida da humanidade sobre a terra”; ou, em um uso novamente positivo: “Inclua na tua escolha presente a futura integridade do homem como um dos objetos do teu querer”. (2006, p. 48).


O princípio da responsabilidade, apresentado por Jonas, é um princípio ético de responsabilidade. Dada a sua amplitude, Jonas propõe uma abrangência não apenas aos horizontes da ética, mas também aos da política, pois sua preocupação enseja construir um mundo sustentável para o aqui e agora e para as gerações vindouras. E para tal propósito é necessário levar em conta o interesse do bem comum de todos os que habitam e vivem na Casa Comum e não apenas os interesses particulares e privados. A todo ser humano lhe é confiada a missão de ser responsável e de assumir essa responsabilidade, sobretudo, perante o “futuro de toda humanidade”. Nessa perspectiva de enfrentamento da complexidade da crise ecológica, o Papa Francisco é claro ao salientar que as possíveis soluções virão por conta do compromisso de cada ser humano sentindo-se, de fato e de direito, convocado a assumir e viver uma atitude de cuidado responsável pela Casa Comum. Assim, afirma Papa Francisco:


Num dos extremos, alguns defendem a todo o custo o mito do progresso, afirmando que os problemas ecológicos resolver-se-ão simplesmente com novas aplicações técnicas, sem considerações éticas nem mudanças de fundo. No extremo oposto, outros pensam que o ser humano, com qualquer uma das suas intervenções, só pode ameaçar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que convém reduzir a sua presença no planeta e impedir-lhe todo o tipo de intervenção. Entre estes extremos, a reflexão deveria identificar possíveis cenários futuros, porque não existe só um caminho de solução. Isto deixaria espaço para uma variedade de contribuições que poderiam entrar em diálogo a fim de se chegar a respostas abrangentes. (2015, n. 60, p. 40).

 

Com a noção de bem comum retomada e apresentada pelo Papa Francisco, relaciona-se o conceito de justiça intergeracional. Este conceito torna-se importante, sobremaneira, para compreender que a concepção de bem comum tem em conta, além da geração atual, também, as gerações futuras. Ao tratar-se a crise ecológica atual, tem-se em conta, a partir do Papa Francisco, a importância de elucidar um desenvolvimento sustentável, com vistas à solidariedade intergeracional, pois, ao tratar-se da crise ecológica mundial, tratar-se-ia, em última instância, da própria dignidade humana. Afirma a Papa Francisco: 

 

A noção de bem comum engloba também as gerações futuras. As crises econômicas internacionais mostraram, de forma atroz, os efeitos nocivos que traz consigo o desconhecimento de um destino comum, do qual não podem ser excluídos aqueles que virão depois de nós. Já não se pode falar de desenvolvimento sustentável sem uma solidariedade intergeracional. Quando pensamos na situação em que se deixa o planeta às gerações futuras, entramos em outra lógica: a do dom gratuito, que recebemos e comunicamos. Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir de um critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual. Não estamos falando de uma atitude opcional, mas de uma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão de vir. (2015, n. 159, p. 95-96).


O dever com as gerações futuras é um dever de cada ser humano e, por conseguinte, de toda humanidade. Nesse sentido, a geração atual tem a nobilitante responsabilidade pelo respeito e pelo cuidado com a vida de todos os seres vivos e com o meio ambiente. É preciso, pois, cuidar e zelar pelos recursos naturais, para que se possa garantir o desenvolvimento sustentável às gerações presente e futura. Por isso, é necessária uma ecologia, uma ética ambiental responsável, que seja capaz de integrar a realidade em sua amplitude quanto mais abrangente possível, por conta de não se tratar de uma crise meramente unidimensional ou extemporânea, mas, sim, de uma complexa crise que envolve a Casa Comum. Decorre, portanto, a necessidade “[...] imperiosa do humanismo, que faz apelo aos distintos saberes, incluindo o econômico, para uma visão mais integral e integradora”. (2015, n. 141, p. 87). Em outras palavras, segundo o Papa Francisco, “[...] a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com os Outros e com o meio ambiente”. (2015, n. 141, p. 87).

 

O surgimento dos problemas planetários leva, inevitavelmente, a uma reestruturação do campo do saber. Em todas as áreas precisamos aprender a raciocinar em escala planetária. Precisamos nos esforçar para pensar globalmente, isto é, além dos nivelamentos nacionais ou regionais. Uma realidade complexa impõe-se ao nosso entendimento. Vive-se num mundo, que, agora sabemos, é complexo. O axioma básico enuncia que as diversas partes do mundo estão ligadas por uma interdependência radical. Por sua vez, a crise, que se faz cada dia mais evidente, tem como característica principal ser em nível planetário. Por isso, a virada para a qual queremos nos preparar, sabemos não se restringirá à história local, e a um período da História determinado, mas, ao contrário, abarcará a civilização humana em seu conjunto. Assim sendo, nossos quadros mentais habituais, nossos raciocínios corriqueiros desmoronam. Para pensar o mundo, em sua globalidade e complexidade, para tornar inteligível a problemática mundial, precisamos abater as barreiras acadêmicas restritivas e fechadas, e tomar uma posição firme na encruzilhada das disciplinas. Uma grandiosa aventura do espírito interdisciplinar está não apenas começando, mas se desenvolvendo. Os temas planetários transformam também profundamente o campo ético. A fim de fazer frente aos problemas, em escala mundial, é urgente revisar nossas atitudes, nossos comportamentos, nossas normas morais. Os problemas planetários são o epicentro de uma profunda mudança de valores. Não é exagero falar de uma planetarização da ética. Estamos sendo convocados para uma responsabilidade de amplitude sem precedentes, isto é, precisamos nos comportar doravante como cidadãos da Casa Comum.


Considerações finais
 

Finalizando, por ora, afirma-se a imprescindibilidade de cada ser humano assumir a ética da responsabilidade, a ética do cuidado com a Casa Comum. É inadiável o compromisso dialógico entre a ecologia ambiental e a ecologia humana, sabendo que uma verdadeira ecologia ambiental e humana passa, necessariamente, pela noção de bem comum, “[...] princípio este que desempenha um papel central e unificador na ética social”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 156, p. 94). Assuma-se um desenvolvimento integral e sustentável no qual o ser humano seja responsável pelo futuro da vida da Casa Comum, em que haja responsabilidade com a dignidade da vida humana e com todos os tipos de vida. Urge o compromisso com a mudança de hábitos, com a qual seja possível forjar
novas atitudes relacionais com os semelhantes, com a Natureza ou com todas as demais formas de vida que constituem o Planeta Terra. Em uma sociedade, muitas vezes desigual, o princípio do bem comum auxilia na observância da prática da justiça, no compromisso responsável com uma ética do cuidado, pois “[...] o bem comum pressupõe o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos fundamentais e inalienáveis orientados para o seu desenvolvimento integral”. (PAPA FRANCISCO, 2015, n. 157, p. 95).


O crescimento dos problemas ecológicos nos últimos tempos é incontestável. O potencial de perigo e ameaça contido nesses problemas clama por uma resposta engajada e consciente do ser humano, tornando-se necessária uma orientação ética, uma vez que o ser humano constitui, na criação, um ser ético capaz de apreender a realidade, refletir, decidir e agir de modo consequente e responsável. O ser humano, nessa perspectiva de reflexão e ação, compreende-se, pois, não mais como o dominador e sim como o cuidador da Casa Comum. Ele vive, eticamente, quando renuncia dominar os outros para estar junto com os outros, quando é capaz de entender as exigências do equilíbrio ecológico, dos seres humanos com a natureza e dos seres humanos entre si, sendo, inclusive, capaz de impor limites a seus próprios desejos, pois a ética ecológica faz lembrar que o ser humano não é apenas desejo, mas, também e, antes de tudo, ser de responsabilidade e solidariedade. É ser de comunhão, de relação integradora e vivificante. Por isso, poder-se-ia, ousadamente, afirmar ser a consciência ecológica que eclodiu e eclode, com muita força, em muitos, talvez, em todos os povos a possibilidade de produzir uma espécie de convergência que nenhum outro movimento, até os tempos atuais, conseguiu. Vista em sua dimensão positiva, a consciência da responsabilidade com a Casa Comum torna-se base de uma compreensão comum, rica em possibilidades de mudanças capazes de corrigir os erros cometidos e encontrar caminhos e propostas de cuidado e responsabilidade com todo o Planeta. Sente-se, nesse sentido, por todas as partes, lugares e em todas as áreas da ciência uma forte interpelação, postulando uma revisão aprofundada da conduta humana, até então, capaz de atingir e questionar os pressupostos que deram origem e sustentação ao estilo e à organização atual da vida humana e de todos os seres vivos no Planeta. Trata-se, por conseguinte, de uma convocação para as urgentes mudanças necessárias em nossos dias, exigindo uma profunda revisão e conversão atitudinal, tanto do ser humano em sua responsabilidade individual como de todas as estruturas sociais, culturais, incluindo, por sua vez, necessariamente, as políticas públicas governamentais, tanto em níveis nacionais como internacionais. 


Referências

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BOFF, Leonardo. Ethos mundial: um consenso mínimo entre os humanos. Brasília: Letraviva, 2000.
BOFF, Leonardo. A nova era: a civilização planetária. 3ª edição. São Paulo: Ática, 1998.
CORTINA, Adela. Cidadãos do mundo: para uma teoria da cidadania. São Paulo: Loyola, 2005.
GALIMBERTI, Umberto. Psique e techne: o homem na idade da técnica. São Paulo: Paulus, 2006.
GIACOIA JÚNIOR, Oswaldo. Hans Jonas: o princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. In: OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Correntes fundamentais da ética contemporânea. 4ª edição. Petrópolis: Vozes, 2009. p. 193-206.
JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para uma civilização tecnológica. Rio de Janeiro: PUC Rio, 2006.
JUNGES, José Roque. Ecologia e criação. São Paulo: Loyola, 1999.
JUNGES, José Roque. Ética ambiental. São Leopoldo: Unisinos, 2004.
OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Desafios éticos da globalização. São Paulo: Paulinas, 2001.
PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica do Sumo Pontífice: Laudato Si’. Louvado sejas. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus; Loyola, 2015.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 3ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2000. 

 

Fonte: http://www.ucs.br/site/midia/arquivos/ebook-cidadani-meioamb.pdf