Nossa falta de sensibilidade e atenção para com os nossos jovens está no limite.

A depressão é um problema que afeta o mundo todo. Passível de ocorrer em qualquer fase da vida, os jovens costumam ser grande parte das vítimas dessa doença. Considerando que este é um problema de saúde pública, embora nem sempre seja tratado como tal, por vezes resulta em atitudes extremas.

 

No Brasil, por exemplo, um estudo realizado em 2014 apontou que somos o oitavo país em números de suicídio no mundo. Embora este já seja um grande problema a ser enfrentado, pessoas em todo mundo agora estão cautelosas, especialmente com jovens e adolescentes, devido ao surgimento do jogo chamado “Baleia Azul”.

 

Se você navegou pelas redes sociais nessa última semana, certamente ouviu falar que ele vem aterrorizando pessoas em todo o mundo, uma vez que resultou na morte de mais de 130 jovens e adolescentes, incluindo já 4 jovens de nosso país.

 

Composto por mais de 50 desafios, o jogo consiste na resolução deles, que depois devem ser atestados por “curadores” dentro de grupos secretos nas redes sociais. O fato é que partes desses desafios podem causar severos danos físicos e mentais.

 

Estes desafios podem incluir coisas simples, como assistir a filmes de terror durante a madrugada ou atos mais intensos, que envolvem mutilação. Já o desafio final, como você já deve ter percebido, consiste no suicídio.

 

O suicídio já mata mais que homicídios, desastres e HIV em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Isso quer dizer que o seu assassino mais provável é você mesmo.

 

Entre os jovens, a incidência é maior: Na faixa etária de 15 a 29 anos, apenas acidentes de trânsito superam o suicídio. Neste grupo, as mais afetadas são as mulheres (não por acaso, o gênero que é treinado para a dependência emocional).

 

Sintomaticamente, o jogo da Baleia Azul é viral. São 50 desafios que envolvem automutilação e atividades arriscadas em geral. O último desafio é tirar a própria vida: só assim, eles dizem, você ganha o jogo.

 

“Ganhar o jogo”, para muitos de nossos adolescentes, é se livrar da obrigação de continuar vivendo – e se isso não te choca, bem, eu desisto.

 

Quanto mais jovem se é, mais coisas são uma questão de vida ou morte. Quando se é jovem, absolutamente tudo parece irreversível.

 

Na adolescência, então, é sempre tudo ou nada, então não é exatamente estranho querer abandonar um mundo que não te entende e, sobretudo, um mundo que você também não entende.

 

Deve ter acontecido na sua família. Ou na família de um amigo. Ou com o amigo de um amigo. Ou com o próprio amigo. Não é difícil que você conheça uma história de suicídio ou de tentativa de suicídio.

 

A questão do suicídio (entre os adolescentes, sobretudo) é urgente e inadiável. Não dá mais para trata-la como piada, embora tantos insistam. O jogo da baleia azul não é o problema: é apenas uma parte ínfima – quase desprezível – do problema.

 

A nossa geração ainda se importa pouco com doenças psíquicas, ainda trata como loucos os psicopáticos, comove-se com uma série bem feita mas é incapaz de se comover perante o sofrimento dos outros – o sofrimento real.

 

A nossa geração tem desaprendido muito sobre amor e compreensão: amar é, cada vez mais, para os fracos. Mães e pais despreparados estão, cada vez mais, surtando – por não saberem o que fazer, berram ou simplesmente ignoram.

 

Vivemos tempos em que todo mundo tem a obrigação tácita de querer pouco ou nada, todo mundo tem que se bastar, ir em frente, ignorar as próprias dores, se valer sozinho.

 

Para uma geração que quase vive virtualmente, é pedir demais. A conta não bate.

 

Não é sintomático, no mínimo, que a juventude do século XXI esteja trancada em casa maratonando séries no sábado à noite porque já não tem paciência (ou habilidade, nunca saberemos) para relações interpessoais?

 

Não é sintomático, sobretudo, que a série mais assistida da história da Netflix seja justamente uma série sobre suicídio?

 

Os nossos jovens estão se suicidando, e cada vez mais, porque a gente não presta atenção neles. A gente também não presta atenção na gente. Não é o desafio da baleia azul que está matando os nossos adolescentes. É a nossa insensibilidade.

 

Alberto Chamorro - Doutor em Bioética, pesquisador.