Sartre: uma filosofia em defesa da liberdade e dos direitos do homem.

O presente a artigo visa mostrar a amplitude e as derivações do conceito de liberdade em Jean-Paul Sartre (1905-1980). Nessa perspectiva, trata-se de uma análise que visa investigar as condições de possibilidade do conceito de liberdade sartreana como fundamento para um compromisso ético-moral que se traduza em responsabilidade para com a sociedade. A pergunta que orienta   está assim formulada: é possível deduzir um compromisso ético-moral, a partir da liberdade? Sua filosofia contempla uma visão humanista? A filosofia sartreana, a partir do eixo central de suas concepções, a liberdade, apresenta-se, como práxis, processo de ação e reflexão na história humana. Sartre em defesa da filosofia do engajamento (compromisso), enfatiza a importância de entregar-nos à ação prática para alargar os horizontes de possíveis de cada homem livre, “ libertando a liberdade”, por assim dizer.  Demonstra-se que, para Sartre, a liberdade é a condição própria do homem e tem por base a atitude de engajamento. Apresenta-se o argumento maior dessa pesquisa, identificando a ideia de liberdade em Sartre associada à ideia de responsabilidade, que é igualmente radical na condição humana. Sartre, com seu pensamento, abre caminhos novos e vem justificar sua tese da necessidade de unir a reflexão teórica com a ação prática e abraçar com coragem e responsabilidade as questões pertinentes à esfera humana: o resgate do ser humano e o direito à cidadania; o surgimento de uma nova cultura, a cultura da responsabilidade ou, seja, a cultura da solidariedade.

 

1.Introdução:

 

Talvez se tenha tornado comum  afirmar que vivemos e respiramos sob uma cultura, fortemente, individualista. Alimentamos e fortalecemos este império consumista que o homem ocidental vive na sociedade capitalista hedonista. A nossa civilização contemporânea construiu um ideário de convivência social com base na competição. O egocentrismo, a indiferença pelos outros e pelas questões socais, tornaram-se, para muitos, a norma.  Se cada um se basta a si mesmo, estamos liberados para ser, pensar e agir deliberadamente, sem medir quaisquer consequências que possam envolver ou atingir os outros. Nesse cenário, parece não existir dúvidas de que estamos todos na mesma condição de vítimas da fragilidade do laço social. Seria legítimo, então, perguntar-nos sobre que papel poderíamos desempenhar para reverter este cenário? Como  ajudar a compreender e a superar os desafios que se impõem? Recorremos ao filósofo contemporâneo Jean-Paul Sartre (1905-1980).

 

O presente artigo tem por objetivo investigar a amplitude do conceito de liberdade, na concepção de Jean-Paul Sartre, e se esta implica em um comprometimento com as causas histórico-sociais que afetam a humanidade. Sobretudo, se é possível sustentar que do conceito de liberdade sartreana deriva um compromisso ético-moral de responsabilidade para com a sociedade. Para analisar a problemática buscamos a resposta na sua principal obra O Ser e o Nada (1943).

 

A ética pode ser simplesmente impossível se a liberdade, fonte de todos os valores, recusar a fraternidade. Faz-se necessário compreender a intersubjetividade como relação processual voltada para o compromisso do ser-para-outro. Os   fundamentos propostos por Sartre na construção de um mundo melhor exige uma moral da autenticidade e da reciprocidade humana atenta à complexidade da existência, atravessada pela contingência e pela liberdade, reivindicando a existência de uma nova lógica, diferente daquela quantitativa e mercantilista que todos nós estamos infelizmente vivenciando. Trata-se de uma lógica qualitativa onde o ser humano possa ser respeitado e tenha condições de viver dignamente.

 

Veremos que Sartre deixou este grande desafio: que é possível, portanto, não só pensar diferentemente o ser humano, mas pensar um homem novo e, consequentemente, repensar a ética atual. O projeto ético tem que estar ligado à liberdade e ao fazer responsável, a fim de superar as idiossincrasias da má-fé e outros comportamentos que revelam a injustiça e falta de compromisso do ser humano.

 

Portanto, o elogio mais completo que se possa fazer a um pensador como Sartre consiste em dizer que ele soube assumir e levar às suas consequências mais extremas as contradições do homem de nosso tempo. Seu pensamento é um convite para atravessar sentimentos ímpios para despir o indivíduo dos resquícios que ainda adulteram, vasculhar o absurdo para descobrir aquilo que a consciência realmente é, enfrentar a hipocrisia da má-fé para que a liberdade possa alcançar-se ao nível mais maduro de sua responsabilidade.

 

2. A liberdade: uma visão humanista

 

Ninguém está acima dos compromissos éticos da sociedade. Os homens independentemente de religião ou de classe social não podem, de nenhuma forma, permanecerem alheios ao que nos aflige, comunitária e socialmente, e a política é o principal meio onde acontece a mediação entre o espaço individual e o coletivo.  Porém, a participação das pessoas nas esferas públicas de decisão deve se dar de uma forma participativa. A formação das consciências deve ser privilegiada, pois só cidadãos conscientes de seus direitos e deveres podem construir uma nova história, marcada pela justiça.

 

No dizer do filósofo Antônio Gramsci

 

(...) acredito que viver quer dizer tomar partido. Não podem existir os apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão (...). Indiferença é óbvia, é parasitismo, é covardia, não é vida. O desafio hoje é muito maior do que no tempo de Marx. Trata-se de alargar os horizontes do fazer histórico a partir de uma atitude insubordinada face aos mandados conformistas. É preciso buscar interlocutores além das estratificações ortodoxamente alinhadas. Inaugura-se, assim, um ritual de participação, momento em que as idéias nascem dos sujeitos estimulados a pensarem. É a condição da vida feliz que enseja asfaltar os caminhos para a cultura da paz.

 

A indiferença é um dos grandes males que se abate sobre a sociedade. As pessoas não procuram mais criar novas formas de inclusão social, alienando-se dos dramas sociais. Uma nova forma de organização da sociedade deve ser visada. O poder político não pode ser monopólio de uma casta ou de um grupo de privilegiados. Todos devem buscar soluções comuns para os problemas sociais.

 

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre comunga do mesmo ideal de Gramsci.  Para Sartre a interrupção de qualquer barbárie, é preciso revigorar uma espécie de sabedoria ética que sustente uma pólis agregadora capaz de abrigar os sujeitos e estar atenta à violação e à liberdade dos seus direitos, defendendo-os sempre que esses estiverem ameaçados.  Sartre, apud Perdigão, afirma que:

 

Lutarei por dois princípios conjuntos: primeiro, ninguém pode ser livre se todo mundo não o for; segundo, lutarei pelo melhoramento do nível de vida e das condições de trabalho. A liberdade – não metafísica, mas prática - é condicionada pelas proteínas. A vida será humana a partir do dia em que todo mundo puder saciar sua fome e todo homem puder exercer um trabalho nas condições que lhe convém. Lutarei não apenas por um nível de vida melhor, mas também por condições de vida democráticas para todos, pela libertação de todos os explorados, de todos os oprimidos.

 

Essa perspectiva de um Sartre engajado com os dramas humanos foi causada, sobretudo, pelo impacto da Segunda Guerra Mundial que, segundo Cohen-Solal, faz emergir o Sartre militante ético que, pela primeira vez, engaja-se em favor de uma causa social. Situação, liberdade e engajamento são, para ele, as palavras-mestras desse período. Ele organiza igualmente um projeto de investigação do mundo, ao mesmo tempo, global e popular. Nesse momento de seu pensamento, Sartre está sendo claro na defesa dos valores políticos e causas sociais ao redor do mundo, enfatizando a importância do ser humano no engajamento social. A filosofia do engajamento que propõe Sartre é, antes de tudo, um andar com os pés no chão, ou seja, uma experiencia situada num tempo e num espaço.

 

Assim, é preciso, pois, alargar os horizontes do fazer histórico a partir de uma atitude insubordinada face aos mandados conformistas. Dir-se-ia: um início, um ritual de participação ativa, momento em que as ideias nascem dos sujeitos estimulados a pensarem para agirem livremente.

 

Para Sartre:

 

A realidade humana é livre porque não é o bastante, porque está perpetuamente desprendida de si mesmo, e porque aquilo que foi está separado por um nada daquilo que é e daquilo que será [...]. O homem é livre porque não é em si mesmo, mas presença a si. O ser que é o que é não poderia ser livre. A liberdade é, precisamente, o nada que é o tendo sido no âmago do homem e obriga a realidade humana a fazer-se em vez de ser.

 

A liberdade, também, não poderia ser pura abstração ou absoluta transcendência porque a consciência não vive apartada do mundo, mas inserida nele, comprometida pelo corpo no mundo do Em-Si, sujeita a necessidades concretas. Toda liberdade é liberdade situada na realidade objetiva e histórica na qual o homem se situa, ou seja, no campo da facticidade. Sartre esclarece:

 

A liberdade não é um transcender qualquer, de um dado qualquer, mas assumindo o dado em bruto e conferindo-lhe seu sentido, ela escolhe e si mesmo de repente: seu fim é justamente mudar este dado-aqui, da mesma forma como o dado aparece como sendo este dado-aqui à luz do fim escolhido. [...] Toda a escolha é escolha de uma mudança concreta a ser provocada em um dado concreto. Toda situação é concreta.

 

Em suma, a liberdade é sempre situada: não há, diz Sartre, liberdade separada de limite. Essa reciprocidade deve ser compreendida a partir de uma relação dialética entre possibilidades e limites: o exercício da liberdade é limitado pela situação, vivida concretamente. Tais limites que possibilitam o exercício da própria liberdade pela condição da resistência.

 

Assim, entende-se que a obra sartreana não é um pensamento que defende uma liberdade sem nenhum compromisso histórico, liberdade puramente abstrata. Apesar de a liberdade apresentar um forte acento na subjetividade, ela tem implicações concretas na história das sociedades, seja pelo compromisso com as causas sociais, seja pelo engajamento. Há um sujeito consciente e responsável por suas escolhas.

 

Amartya Sen, consagrado economista indiano que nasceu no ano de 1933, que hoje leciona economia e filosofia em Harvard nos EUA e tem uma grande importância no debate acadêmico atual pode ser avaliada pelo seu prêmio Nobel de economia em 1998.   Esse filósofo indiano defende que as oportunidades, de modo geral, dizem respeito aos vínculos que deve ser estabelecidos entre a liberdade e as nossas  ações e decisões que as pessoas têm e que garantem as oportunidades reais dos indivíduos, ou seja, ações livres. Segundo Sen, 

 

A privação da liberdade pode surgir em razão de processos inadequados (como violação do direito ao voto ou de outros direitos políticos e civis), ou de oportunidades inadequadas que algumas pessoas têm para realizarem o mínimo que gostariam (incluindo a ausência de oportunidades elementares como a capacidade de escapar da morte prematura, morbidez evitável ou fome involuntária.).

 

A propósito, Simone de Beauvoir ratifica a importância da subjetividade, já destacada por Sartre. Nas suas palavras: “Quanto mais vivamente um filósofo sublinhar o papel e o valor da subjetividade, mais ele será levado a descrever a experiência metafísica em sua forma singular e temporal” .Quanto mais o sujeito for consciente de sua própria condição, isto é, quanto mais conhecer sua estrutura e sua dinâmica, encontrará o sentido de sua existência, na construção de sua realidade histórica.

 

Uma vez que a existência precede a essência, Sartre apresenta o primeiro princípio do existencialismo no qual o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo. Significa, dizer, que o homem primeiramente existe, se descobre, neste mundo, e só depois se define. Sendo assim, prioriza a ação, uma vez que é a partir dela que a “essência” do homem é construída.

 

Se tudo está por se fazer, ou seja, em aberto, com infinitas possibilidades de agir, não há razão suficiente para alguns julgarem a filosofia sartreana como uma filosofia gratuita que fecha todas as portas para um compromisso do homem na vida em sociedade.

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O risco de uma liberdade sem compromissos é o aumento da desigualdade social. Segundo Zambam e Aquino, o aumento da fome no mundo está relacionado à ausência de liberdade. A análise da última fome coletiva na Índia que dizimou incontáveis vidas humanas, somou-se à manutenção das exportações de alimentos, em período expressivo, para abastecer o mercado inglês.  A afirmação de Sen, a partir de suas análises empíricas, demonstra que não ocorrem fomes coletivas ou cenários similares em sociedades democráticas com liberdade de expressão, participação e decisão.  Segundo Sen, incluem capacidades elementares como, por exemplo, ter condições de evitar privações como a fome, a subnutrição, a morbidez evitável e a morte prematura, bem como as liberdades associadas a saber ler e fazer cálculos aritméticos, ter participação política e liberdade de expressão, etc..

 

Já segundo Sartre deve-se, incessantemente, participar na construção da história do ser humano com paixão, isto é, com pathos, direcionando o seu existir com autenticidade e com compromisso para conquistar seu modo de ser humano. O pensamento existencial sartreano afirma ser a vida o somatório de todos os atos, uma vez que não existe para cada um senão aquilo que ele próprio faz, ou seja, o resultado de cada uma de suas ações constitui a sua própria existência humana.

 

O filósofo sabia que os homens e as sociedades que se deixam pautar pela indiferença pagam um preço muito caro, pois todos, de uma forma ou de outra, sofrem com as injustiças de um tecido social gasto pelo egoísmo e ambição de certos grupos. O verdadeiro humanismo trata, com rigor teórico, os grandes problemas da sociedade e aponta para soluções.

 

Podemos nos perguntar, então, o humanismo morreu? Diríamos, pois, que esta preocupação humanista que sentimos pela convivência e pelo bem-estar humano não desaparece, e no momento em que se exaurir, irão desaparecer os seres humanos. Mesmo com a relativização dos direitos humanos e apesar do egoísmo crescente na sociedade neo-liberal, o interesse pelo outro não desapareceu e a preocupação com a construção de uma sociedade justa permanece.  Se isso não acontecesse seria o fim de toda a humanidade, pois a civilização seria, rapidamente, dizimada. A aterrorizante violência urbana e os crimes ambientais são um alerta, na perspectiva de que precisamos aprender a viver com mais humanidade.

 

Entretanto, há lugar para a esperança neste mundo insensível e humano? Como descobrir seus caminhos? Podemos confiar na paz e nos pactos humanos? Nessa sociedade de tantas dúvidas, o filósofo tem por ofício refletir o tempo em que vive. Segundo Platão, a primeira virtude do filósofo é admirar-se. A admiração é a condição da qual deriva a capacidade de problematizar, o que marca a filosofia não como posse da verdade, mas como sua eterna busca. Porém, a filosofia humanista não deve limitar-se ao simples admirar. Esta deve ser apenas uma etapa na efetivação de uma sociedade marcada, profundamente, pela justiça.

 

A filosofia existencial é, por excelência, uma das grandes buscas teóricas que a civilização do século XX empreendeu, para compreender-se. A humanidade clama por uma razão que não exclua milhões de homens e mulheres. Cabe à filosofia dar condições para a construção de um referencial ético-reflexivo que sinalize à sociedade valores propositivos e afirmativos.  O caminho da racionalidade deve ser o de seguir na construção de um espaço de vida marcado por sentimentos de justiça, que passem por uma reflexão coerente e um engajamento social.

 

Sartre, com sua defesa incontestável da liberdade humana, concebe nossa existência como um permanente projeto, pleno de possibilidades. Esta característica nos  confere a visão de uma sociedade em mudança, talvez  um mundo melhor. Segundo a filósofa Cecília Pires, a humanidade evoluiu, caminhou, gradativamente, para o reconhecimento dos direitos  humanos. No entanto, o desrespeito a esses direitos ainda permanece. São muitas as crueldades que ainda estão ocorrendo em nosso tempo. São muitos os homens e mulheres que sentem e sofrem a exclusão social, nas várias formas de marginalização e violência simbólica e social. Para a filósofa Cecilia Pires:

 

Há graves problemas em alguns segmentos da sociedade civil, como os que ocorrem com meninas e meninos de rua, com as mulheres violentadas, com os negros discriminados, com os operários famintos, cuja escassez demanda ações eficazes e urgentes, que lhes indiquem a possibilidade de saída. A eles não interessa o êxito de tal facção ou agrupamento partidário, eclesial ou educacional. As suas urgências são originárias, entranham seu ser. Eles precisam se saber sujeitos, para que se entendam como pessoas de direito. E isso significa saber desse saber, ter consciência dos próprios direitos.

 

Os sofrimentos que atingem as pessoas nas formas mais humilhantes precisam ser, urgentemente, superados. Mas, o processo de inclusão social não se dá apenas pela vontade de uma força social superior, mas deve ser protagonizado pelos próprios marginalizados, pois a construção de uma sociedade marcada pela justiça deve partir não somente, mas sobretudo, daqueles que mais necessitam da efetivação dos direitos.

 

3. O compromisso ético

 

A sociedade se depara com grandes desafios éticos e não há possibilidade de construção de uma sociedade mais justa, se não conseguirmos refletir, adequadamente, a fim de fornecermos respostas à altura dos desafios éticos de nosso tempo. Quando se tenta formular uma reflexão ética não se deve jamais esquecer que as razões e o porquê da ética estão na imediata determinação dos regramentos individuais e sociais.

 

O ser humano emite juízos morais situado num contexto histórico. Não há um código de moral ou preceitos éticos que não estejam situados numa determinada sociedade, enquadrada num determinado quadrante espaço-temporal. Os horizontes da ética se referem aos limites do que é ou não permitido numa específica sociedade.

 

O pensador aceita a teoria da intencionalidade de Husserl ao afirmar que conhecer ou ter consciência é sempre ter consciência de alguma coisa, e ter consciência de alguma coisa é construir significados face ao próprio Ser. “A consciência é um ser cuja existência coloca a essência, e, inversamente, é consciência de um ser cuja essência implica a existência, ou seja, cuja aparência exige ser. O ser está em toda parte”. O autor extrai dessa descrição uma dinâmica da consciência que ultrapassa a si mesmo e compreende o mundo dos objetos, além da aparência. O ser para a consciência é transfenomenal.

 

Entende que o homem tem um compromisso com a humanidade porque ao escolher um projeto de vida, ele é, absolutamente, responsável pelo sustento desse projeto. Ele precisa sustentar, por meio do seu agir, os valores que compõem a moralidade, servindo de parâmetro para a existência de toda a humanidade. Ao escolher um determinado tipo de homem, escolhe-se, não só o tipo que serve, mas também o que deve servir de protótipo para a humanidade toda.

 

Para compreender melhor o conceito de escolha, faz-se necessário recorrer ao texto de sua conferência, O Existencialismo é um Humanismo, no qual Sartre argumenta que, ao se fazer uma escolha, cria-se uma autoimagem do homem tal como ele deve ser e, dessa forma, uma imagem que engloba toda humanidade. Sartre afirma:

 

Quando dizemos que o homem se escolhe a si, queremos dizer que cada um de nós se escolhe a si próprio; mas com isso queremos também dizer que, ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens. Com efeito, não há dos nossos atos um sequer que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. [...] Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda humanidade.

           

Dessa forma, para Sartre, na medida em que o homem é o ser pelo qual há um mundo, ele é autor desse mundo, bem como de si mesmo, porque ele faz ser não como criadores ou produtores, mas na “maneira de ser”, na maneira como escolhe na situação.

 

Dirá Sartre:

 

Não serei eu quem determina o coeficiente de adversidade das coisas e até sua imprevisibilidade ao decidir por mim mesmo? Assim, não há acidentes em uma vida; uma ocorrência comum que irrompe subitamente e me carrega não provém de fora; se sou mobilizado em uma guerra, esta guerra é minha guerra, é feita à minha imagem e eu a mereço.

 

A responsabilidade não é, portanto, uma ideia simplesmente adicional à de liberdade, ela é constitutiva, podendo ser deduzida das descrições anteriores a respeito do ser livre e da consciência. Por isso, dirá Sartre, que a consequência essencial das observações anteriores é a de que um homem “estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser”. A noção de responsabilidade funda a relação entre o homem condenado a ser livre e a ética do compromisso. A responsabilidade é uma reivindicação das consequências da liberdade. Aquilo que ocorre ao homem é seu acontecimento e, assim, ele compromete-se com aqueles que, de uma maneira ou outra, estão envolvidos também. Por mais insignificante que seja, o fazer cotidiano do homem é comprometido com o outro. Qualquer escolha deve ser responsável em face de qualquer situação, mesmo não existindo nenhum valor a priori que a defina.

 

É possível afirmar e comprovar que, em Sartre, mesmo não descrevendo propriamente uma moral, é perfeitamente possível perceber-se o peso enorme que ela possui em suas ideias.

 

Para facilitar a interpretação e sustentar a tese de uma moral sartreana, recorre-se ao filósofo Paulo Perdigão que diz:

 

Na verdade, em O Ser e o Nada, todo esforço intelectual de Sartre destinava-se a demonstrar que o homem é livre, (...) Sartre respondeu que o único dogma do existencialismo é a afirmação da liberdade humana, explicando que a sua doutrina não conduz a um “quietismo de angústia”, mas, pelo contrário, define o homem pela ação prática: o homem deve criar a sua própria essência, e para isso deve lançar-se no mundo, sofrendo e lutando, assim definindo-se pouco a pouco. “O existencialismo – disse - é uma, filosofia humanista da ação, do esforço, do combate, da solidariedade”.

 

O pensamento filosófico de Sartre, portanto, permite um alargamento de perspectivas e de compromissos éticos e sociais. Assim, o que propõe com seu pensamento é recolocar sobre os ombros do homem, sujeito, a responsabilidade total de produzir e justificar seus próprios valores universais. Ao assumir, suas escolhas e, consequentemente, suas decisões, o ser humano superará as dificuldades geradas pelos outros ou por ele mesmo. Ao priorizar a ação humana, chama a atenção de cada indivíduo para a liberdade que possui e que torna-se presente por meio do agir humano. O indivíduo tem, em suas mãos, a possibilidade de romper processos e dizer não à conjuntura, modificando o rumo de suas ações e de refletir sobre suas ações no seu contexto existencial. 

 

Segundo Sartre:

 

Sou abandonado no mundo, não no sentido de que permanecesse desamparado e passivo em um universo hostil, tal como a tábua que flutua sobre água, mas, ao contrário, no sentido de que me deparo subitamente sozinho e sem ajuda, comprometido em um mundo pelo qual sou inteiramente responsável, sem poder, por mais que tente,  livrar-me um instante sequer desta responsabilidade de ser-no-mundo.

 

Pode-se perguntar o que seria o abandono? Sartre defende que não há nada pré-fixado para o homem em sua existência no mundo. O homem, de certa forma, está, totalmente, abandonado à sua própria liberdade. A liberdade e a responsabilidade são originárias, ou seja, são um convite ao transcender-se enquanto existência. Na sua compreensão:

 

Assim, a facticidade está por toda parte, porém inapreensível; jamais encontro senão a minha responsabilidade, daí por que não posso indagar por que nasci, maldizer o dia de meu nascimento ou declarar que não pedi para nascer, pois essas diferentes atitudes com relação ao meu nascimento, ou seja, com relação ao fato de que realizarão uma presença no mundo, nada mais são precisamente, do que maneiras de assumir com plena responsabilidade este nascimento e fazê-lo meu.

 

Dessa maneira, para Sartre, nada impede a liberdade, nem as situações e nem as emoções. Nas situações condicionantes, o homem continua livre porque todo o condicionamento que existe, na situação, dependerá do projeto de cada um. É a liberdade que determinará a situação porque são os objetivos do homem que farão das coisas possibilidades ou limites. A responsabilidade deve ser uma característica de todo o agir livre humano.

 

Sartre, com seu pensamento, abre caminhos novos e vem justificar sua tese da necessidade de unir a reflexão teórica com a ação prática e abraçar com coragem e responsabilidade as questões pertinentes à esfera humana: o resgate do ser humano e o direito à cidadania; o surgimento de uma nova cultura, a cultura da responsabilidade ou cultura da solidariedade.

 

Ratifica-se assim, o que Fornet-Betancourt expressa:

 

A especificação da questão intercultural, como Sartre deve enfatizar, é inseparável de seu compromisso político pela luta de libertação dos povos do Terceiro Mundo e das minorias oprimidas. Isso é no fundo uma consequência necessária da concepção de ser humano como a liberdade, ou a ideia que serve como um marco na arquitetura de sua filosofia inteira. É a liberdade, mais precisamente, a ideia de afirmar a liberdade como um objetivo da realização do verdadeiro ser humano sem discriminação de qualquer tipo, como uma exigência da universal ordem sócio-política em que os seres humanos, o respeito pela sua liberdade, é reconhecida e tratada de igual para igual.  Sartre teve que tematizar a questão em termos intercultural numa dimensão inerente no desenvolvimento e especificidade histórica de sua filosofia de liberdade.

 

Uma das discussões filosóficas contemporâneas é da liberdade ética e essa está, intimamente, ligada à comunidade humana. As relações não são de contiguidade, mas de intersubjetividade, de engajamento, isto é, o ser humano não está, simplesmente, um ao lado do outro, mas é feito um pelo outro. Sendo assim, não se pode falar propriamente do ser humano como se ele fosse uma ilha, visto que ele necessita compartilhar sua existência com os demais indivíduos. Por isso, o homem é um ser social.

 

O indivíduo não existe como ser humano fora do meio social. Além dos impulsos vitais que levam os homens a juntarem-se ou a oporem-se uns aos outros, eles são estimulados a compartilhar sua própria existência com os demais e, além disso, são movidos pela necessidade de buscar o bem comum. Assim sendo, para garantir o bem individual e coletivo e para a concretização do bem comum, acha-se indispensável a compreensão da autenticidade como Sartre aborda, como foi visto acima.

 

Yvan Salzmann, um dos pensadores franceses estudiosos do pensamento de Sartre, afirma:

 

Essa autenticidade é tentar fazer uma moralidade concreta. O agente moral deve, realmente, estar ciente do que está sendo feito e existem valores - a partir de umas contingências originais - que não são mudados em ações transformadoras e criativas que mostram toda a sua inalterável liberdade. .

 

De fato, aprendeu-se com Sartre, que ao querer a liberdade pela liberdade, descobre-se que nunca o ser humano foi plenamente livre. E se ele não é os outros, também, não o são. A liberdade humana acontece no inter-relacionamento com os outros, na relação cotidiana com as pessoas. Se os outros oprimem o homem, impedindo que ele se manifeste, então, sua liberdade é precária. Portanto, a liberdade acontece quando as duas partes têm um compromisso com o outro, assumindo, reciprocamente, a defesa pela liberdade de todos em todas as formas de manifestação. A filosofia de Sartre uma defesa radical da verdade, na qual cada homem escolhe o seu destino e constrói a sua história.

 

O caráter social da liberdade contrapõe-se à ideia individualista de liberdade herdada da tradição liberal burguesa, cuja concepção clássica era a liberdade de cada um que era limitada, unicamente, pela liberdade dos demais, ou seja, a liberdade de cada um encontrava o seu limite na liberdade do outro. No entanto, nem sempre a liberdade de escolha é tão livre quanto se apregoa, sobretudo nas sociedades em que predominam privilégios para poucos, restringindo o campo de ação livre da maioria.

 

Sartre nunca deixa de se preocupar com os problemas de seu tempo. Por isso, defende a necessidade de um engajamento social em prol da construção de uma sociedade mais justa e responsável. O ser humano tem uma responsabilidade pessoal por tudo o que acontece dentro de sua história de vida.

 

Apesar de todas as mudanças de pensamento em sua vida intelectual, ele nunca deixou de se preocupar com os problemas que atingiam a sociedade de seu tempo. Antes, ele buscou uma compreensão do homem que não fosse fragmentada ou que estivesse estilhaçada pelas ciências positivas, buscando, principalmente, ver e analisar o homem como um todo, na sua unidade.

 

Sabe-se de que a vida moral só é possível como ação baseada na cooperação, na reciprocidade e no desenvolvimento da responsabilidade e do compromisso. Só assim, torna-se viável a efetiva liberdade de cada um. Nesse sentido, o outro não é limite da liberdade do homem, mas a condição para atingi-la. Parece prudente atentar bem para o que se escolhe e para o que se faz, procurando adquirir um certo saber-viver que permita ao homem acertar. A ética é uma necessidade humana, mais do que ser uma reflexão sobre os costumes, pois não há possibilidade de existência sem uma vida marcada por ações éticas.

                       

No entanto, a sociedade existe, sobretudo, porque os homens não só acreditam que cumprindo as normas éticas eles viverão em paz, mas, sobremaneira, porque a existência humana vivida eticamente torna o homem mais humano. Não há formas de vida que possam ser aceitas, se não tiverem o homem como fundamento e ideal último da sociedade, pois o ser humano experiencia, fundamentalmente, a ética.

 

A experiência ética é uma experiência humana fundamental, é a nossa condição de pessoas, que nos leva a assumir valores éticos. As questões – que devo fazer? Como devo agir? O que posso escolher?  - estão inseridas no âmbito do convívio social, uma vez que não somos sujeitos programados, determinados como objetos, sem vontade ou sem liberdade.

 

O convívio social é o ambiente onde a ética é vivida e   pode ser transformada. Se há um grande apelo, a fim de que se possa construir uma nova sociedade, este passa por uma grande ruptura com os modelos e estereótipos éticos que não privilegiam o ser humano, tornando-o um meio e não um fim em si mesmo.

             

A valorização do humano passou a ser um dos temas mais urgentes de nossa época, tão carente de um discurso ético que inclua os marginalizados, como principalmente, de práticas inclusivas, através de políticas afirmativas, tanto públicas como privadas de promoção da cidadania.

 

O relativismo ético se apresenta como um dos grandes obstáculos à superação desse estado de falência ético-moral a que assistimos. Nada proíbe pensar que valores relativos a esta ou àquela sociedade possam se tornar, e se tornam cada vez mais relativos à humanidade em seu conjunto. Essa permissividade teórica que não impõe limite algum e não proíbe pensar a relativização dos valores é que torna frágil toda tentativa de engendramento de um novo sistema moral. 

 

A perplexidade de Sponville é ainda maior, porque estamos ao ponto de flexibilizar a noção de Direitos Humanos. Uma conquista muito cara para a sociedade humana do século XX e que foi conseguida sob as cinzas da 2ª Guerra Mundial.

 

Não é a um processo assim, de universalização crescente, que assistimos hoje, em torno dos chamados “Direitos Humanos”? Se temos, no essencial, o mesmo corpo, o mesmo cérebro, a mesma razão, se temos cada vez mais a mesma história e a mesma civilização, como não teríamos também, cada vez mais, os mesmos valores ou os mesmos ideais? A moral pode permanecer ao mesmo tempo absolutamente particular (toda moral é humana) sem deixar de tornar-se relativamente universal todos os homens podem ter, de direito, a mesma moral, e nada impede que a tenham, de fato, cada vez mais.

 

Está crescendo, todavia, a consciência de que há certos valores e preceitos que não podem ser abandonados ou relativizados de modo algum. A luta pelos direitos humanos não poderá jamais ser deixada de lado e será sempre um desafio para as próximas gerações. Uma sociedade que relativiza os direitos humanos está condenada à implosão do pacto social porque nada pode ser pior do que desconsiderar a primazia da vida humana diante dos instintos humanos e, sobremaneira, os mais narcísicos e ególatras.

 

A filosofia sartreana, nos desafia e nos faz refletir sobre a necessidade de cada ser humano tomar em mãos as rédeas de si mesmo, como protagonista consciente de sua história. Trata dessa questão na quarta parte da obra O Ser e o Nada, intitulada Ter, Fazer  e  Ser.  Não basta ter somente uma consciência crítica da realidade, mas sim, é necessário um agir ativo nas transformações sociais.  Sartre, assim, adverte da necessidade de o homem alargar seus horizontes do fazer histórico-responsável a partir de uma atitude insubordinada face aos mandatos conformistas. Dir-se-ia como uma espécie de ritual de participação ativa. Momentos, esses, em que as ideias nascem dos sujeitos estimulados a pensarem e agirem livremente.    

 

Os procedimentos éticos sartreanos não têm a finalidade de dizer como deve ser a economia e a   política. No   entanto, a economia   como a política não podem desenvolver-se sem a ética. A ética perpassa, transversalmente, as dimensões sócio-econômico-políticas e culturais das relações sociais. Não é possível viver sem uma ética básica que não contemple a relação intersubjetiva. Pois, é a partir da relação intersubjetiva, neste contexto, escolha-engajamento-compromisso, que a liberdade adquire substancialidade ética.

 

O projeto do homem, só se faz em contato com o projeto que o outro é, não para imitá-lo, mas para conferir autenticidade ao nosso próprio projeto. A questão do outro é uma realidade que perpassa a obra de Sartre. O outro é o meu inferno, como ele afirma em sua peça Entre Quatro Paredes. Dizer que o inferno são os outros, produziu um tremor forte nas consciências daqueles que aceitavam, ainda que de modo falso, a presença alheia no seu universo subjetivo. Refere-se à falsidade porque todos sabem das dificuldades que se tem ao lidar consigo mesmo, com os próprios limites e incoerências, quanto mais lidar com tudo isso no universo de estranhamento que o outro produz.

 

Isto não significa dizer que a presença do outro é insuportável, que ele deve ser aniquilado ou qualquer defesa proselitista acerca dos melhores e piores sujeitos do mundo. O que é preciso entender, sem recuar na compreensão sartreana, é que há uma indicação concreta de que é necessário preservar a subjetividade.

 

Usada sem o devido contexto, tal sentença causa certo alvoroço e frenesi, como se por meio dela Sartre quisesse anular a importância capital que tem o outro; e ainda, como se isso desse margem para a justificação de uma espécie de individualismo solipsista ou de ostracismo, quando, na verdade, a presença do outro é tão importante que a metáfora do inferno é empregada de modo e a nos fazer sentir a profundidade do impacto da existência do outro sobre nós. Afirma a esse respeito Sartre:

 

[...] o 'ser-com' tem significação completamente diferente: o 'com' não designa a relação recíproca de reconhecimento e luta resultante da aparição no meio do mundo de uma outra realidade-humana que não a minha. Expressa sobretudo uma espécie de solidariedade ontológica para a exploração desse mundo.

 

O fato de que o outro é objeto para mim, da mesma forma que eu sou objeto para ele, não constitui um ponto negativo da filosofia de Sartre, quer dizer, tão somente que o outro é um mediador com o qual eu preciso contar para construir minha existência. É assim que Sartre redescobre a intersubjetividade. Na conferência o Existencialismo é um Humanismo, (1945) Sartre afirma nossa inteira dependência do outro, nossa necessidade de que ele, também, exista quando diz,

 

O outro é indispensável à minha existência, tal como, aliás, ao conhecimento que eu tenho de mim. [...] Assim descobrimos imediatamente um mundo a que chamaremos de intersubjetividade e é nesse mundo que o homem decide o que ele é e o que são os outros.

 

E esse retorno existencialista à subjetividade, como campo sobre o qual se pode dizer com segurança alguma coisa, é, segundo ele, a única forma de conferir dignidade ao homem. Como já abordamos anteriormente, o conceito de subjetividade em Sartre, refere-se especificamente à tessitura do acontecimento humano que se constitui, arduamente, por si mesmo, e não de acordo com determinações naturais, divinas ou transcendentais.

 

Notaremos o surgimento da ideia de uma ética da responsabilidade e de uma cultura solidária a partir do compromisso e do engajamento, na qual Sartre nos coloca no caminho da exigência de recompor tanto teórica como prática a ideia da liberdade humana, mediada pela necessidade da responsabilidade e da solidariedade.

 

A imagem do homem é a de um ser real e singular, como consciência que se lança no mundo para dele tirar seu conteúdo. Faz parte do conjunto histórico e coloca diante de si pela autenticidade e pela reflexão o peso da responsabilidade. Só será possível falar de valor moral numa perspectiva prática, na ação concreta e em situação, isto é, não em uma moral meramente contemplativa.

 

O agente moral, portanto, não tem uma natureza, um fundamento estável, mas é um sujeito, predominantemente, marcado pela mudança, pelo comprometimento e pelo reconhecimento da diversidade de consciências que encontra diante de si. Essa moral defendida por Sartre não se dá no isolamento, mas coloca o indivíduo no projeto de ser-com-os-outros. São suas próprias palavras: “ O outro é o mediador indispensável entre mim e mim mesmo: sinto vergonha de mim tal como apareço ao outro”.   

 

As diferenças culturais não podem separar as pessoas, porque os seres humanos têm mais semelhanças e comungam os mesmos dramas. Quando se relativiza os preceitos éticos, como os Direitos Humanos, abre-se caminho para toda forma de arbitrariedade à revelia da lei, e de mazelas que minimizam a dignidade humana. É notório em nossa sociedade contemporânea onde o individualismo se reduz a um narcisismo. Cada pessoa está preocupada apenas com a busca de seu prazer imediato, de seu próprio sucesso e de seus interesses exclusivamente particulares. O egocentrismo e a indiferença pelos outros e pelo mundo tornaram-se, para muitos, uma norma. Sartre nos convida a ressignificar o lugar do homem no mundo, sua relação com o outro e consequentemente com a humanidade.

 

Seu pensamento nos dá um alento e confiança para prosseguirmos nossa luta de transformações sociais, mas para isso é necessário o nosso envolvimento, o nosso engajamento. Sendo nós mesmos, com autenticidade, protagonistas de nossa história. Ter presente que nunca devemos negar a responsabilidade por tudo o que fizermos.

 

Expressou este grande desafio: que é possível, portanto, não só pensar diferentemente o ser humano, mas pensar um homem novo e, consequentemente, repensar a ética atual. A vida é uma paixão inútil se o sujeito não levar a sério a liberdade com a responsabilidade.

 

4. Considerações finais

 

O filósofo Jean-Paul Sartre adverte o ser humano para a necessidade de uma ação conjunta para enfrentar os desafios sociais.  Percebe-se que, quando o homem desaprende de ser solidário, ele empobrece suas relações sociais e sua própria condição de humanidade, que se realiza a partir da intersubjetividade com os outros. Ao abrir mão da intrínseca relação entre o eu e o outro, perde-se a dimensão da construção social que se dá coletivamente.

 

O pensamento sartreano assevera que o uso da liberdade do homem depende, exclusivamente, da sua responsabilidade. Identifica na liberdade todas as possibilidades do ser humano realizar seus projetos de autonomia da consciência. E isso tem preço: o do enfrentamento contínuo e coerente de tudo aquilo que for empecilho para o humano se realizar na totalidade de sua existência. Os homens devem ser solidários uns aos outros para que a escassez possa ser superada. No âmbito da escassez, isto é, na ausência da ética,  a liberdade não se realiza. Nisso consiste a responsabilidade moral, daí o dizer que na minha escolha está a escolha da humanidade, na medida em que o projeto de liberdade é um projeto humano. Cabe a cada um tornar-se ator de um mundo mais fraterno para ajudar o mundo a mudar.

 

Portanto, o   modo do homem estar no mundo, se consciente e responsável de sua missão, é justamente para poder melhorá-lo, aprimorá-lo, tornando-o cada vez mais humanizado e habitável. O compromisso significa engajamento e esse representa o dever de analisar a situação concreta em que se vive, tornando-se solidário nos acontecimentos de seu tempo. Comprometer-se é optar, é envolver-se, é responsabilizar-se num empenho radical. A medula do compromisso está na liberdade e na responsabilidade.

 

Ao falar e vivenciar a liberdade pautada na ética, na solidariedade, no engajamento e na prática da justiça, mesmo que na obra de Sartre não haja o conceito de cidadania, e o filósofo não use esse termo, pensa-se que é o conceito mais próximo do que seria uma possível ética sartreana numa linguagem do século XXI. É uma forma de traduzir a ética sartreana para o tempo atual. Defende-se, pois, que a cidadania é este elemento integrante do comprometimento do homem, isto é, inserido, ativamente, na realidade social. Sendo assim, uma maneira palpável de edificar e construir espaços na sociedade, para, de fato, existir uma convivência mais humana para todos.     

 

Decorre do pensamento sartreano que o exercício da cidadania não pode ser uma prática isolada, solipsista, mas uma ação coletiva, comunitária, em favor da vida, em favor dos que estão à margem do tecido social, integrando-os no corpo social. Para isso, é fundamental que cada sujeito participe da vida política, econômica, social e cultural de sua cidade, de seu país, do mundo.

 

O humanismo do século XXI deve ir além do humanismo filosófico de Jean-Paul Sartre do século XX, porque de lá para cá os desafios para o humanismo aumentaram, em virtude de um esfacelamento ético cada vez maior.  Precisamos intensificar nossas habilidades para lidar com o real, olhando de forma mais ampla e crítica para a realidade. Procurar não só dentro de nós mesmos, mas interagindo, permanentemente, com o social.

 

Concluímos a partir deste artigo que a   filosofia humanista sartreana   nos faz um apelo e um alerta fundamental neste tempo atual, no qual a ética não pode ser a vida individual, privada, pautada somente pelos interesses pessoais. A concretização do bem, a busca da felicidade só terá sentido ético se incluir o próximo, o outro, isto é, fazer da felicidade do próximo o motivo de nossas inquietações, das nossas ações.

 

Referências

 

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Autor das obras:  Humanizar o Humano-Uma leitura de Camus e Sartre ;  Liberdade e Ética- Uma leitura de J. P. Sartre. robertocarlosfavero@yahoo.com.br