OS DESAFIOS PARA O CRISTIANISMO NO SÉCULO XXI
1. Introdução.
Sem dúvida, os desafios ao cristianismo, no início deste milênio, são inúmeros. Nossa intenção é tocar em alguns deles na perspectiva de iluminar nosso seguimento de Jesus, que deve continuar se encarnando na história e puxando-a, pelo Espírito do Ressuscitado, à frente, abrindo-lhe caminhos que apontem possibilidade de vida e vida abundante para os filhos e filhas do mesmo Deus Pai-Mãe e para toda a criação. Queremos apontar alguns desafios ligados à compreensão do cristianismo na história, como ele se reporta a Jesus de Nazaré e desafios ligados à vida do ser humano no planeta, relacionados à economia, à política, às culturas, à ecologia e ao sentido da vida.
2. Jesus e o cristianismo.
2.1. Cristianismo: um fato histórico.
O cristianismo é um fato histórico. É a forma histórica que o movimento de Jesus assumiu. Nós o vivemos em sua forma ocidental, com traços romanos e nos perguntamos se ele tem potencial para se encarnar em outras culturas, tanto na América Latina e Caribe, como também nas culturas da Ásia e da África. Esta afirmação de ser um fato histórico implica em que “a cristologia, o estudo do próprio Jesus, de sua pessoa, desta pessoa que viveu outrora sobre a terra do imperador Tibério, deve preceder a todas as questões referentes à sua significação e a toda a cristologia. A soteriologia deve decorrer da cristologia e não o contrário. Caso contrário, a própria fé na salvação perde sua base... A cristologia deve partir do Jesus de outrora e não de sua significação para nós, tal como, por exemplo, nos apresenta a pregação. A significação de Jesus deve ser explicada a partir do que Jesus foi realmente”. Isto significa concretamente que Jesus é a fonte de todas as significações.
Desta maneira, o cristianismo se reporta a Jesus de Nazaré e reflete a partir de sua vida, sua prática, sua mensagem, sua morte e sua ressurreição, atestada pelo grupo de seus seguidores. É este testemunho que nos liga ao Jesus da História, pois sem a ressurreição, a imagem histórica de Jesus se perderia na poeira da história. Neste sentido, dependemos da fé dos primeiros seguidores: “Quem quiser, portanto, entrar no domínio da significação de Jesus de Nazaré, quer dizer, no das cristologias, deverá confiar que os discípulos de Jesus são sinceros quando nos asseguram terem tido realmente a certeza de ter visto Jesus depois de sua morte, cheio de vida, e se sentem obrigados, portanto, a tirar importantes conseqüências dessas experiências para interpretá-lo”.
2.2. Jesus, ao mesmo tempo, histórico e contemporâneo.
O que se anuncia deve levar em consideração que Jesus é, ao mesmo tempo histórico e contemporâneo. Histórico, pois sua história não é aleatória, mas deve ser fiel ao testemunho Jesuânico. No dizer de Jean Onimus, deve-se “recolocar Jesus em primeiro lugar, vê-lo viver; ouvir, enquanto ainda for possível, o tom de sua palavra, suas cóleras, suas impaciências, mas também seus momentos de afeição e de piedade... Não mais um Deus visitando a terra (...), mas um ser totalmente humano que vem nos revelar – exatamente por ser humano – o que há de totalmente-outro no fundo de nós, o que há, talvez, efetivamente de divino”.
O desafio para o cristianismo, neste novo milênio, é anunciar, através da profissão de fé cristã, um Jesus que seja compreendido e que motive o seguimento: “Eu sonho com um outro credo que se apoiaria, não sobre as definições dogmáticas, mas no exemplo do pai do “filho pródigo”, no salário da décima primeira hora, no perdão à mulher adultera, etc. Esse credo não apelaria por uma adesão verbal e “intelectual!; ele suscitaria uma atração humana e uma intensa simpatia. O ‘Verbo Encarnado’ não tem mais nenhum impacto sobre nossos espíritos, mas a voz que indica o cuidado das crianças, que promete a felicidade aos humildes e que coloca o amor acima de todos os valores, sempre será escutada por todos os homens (e mulheres) e em todas os tempos. Este será um credo concreto. Ele emana dos evangelhos sinóticos”. J.B.Libanio assim se expressa em relação ao homem Jesus: “O seu excesso de humanidade, de bondade, de misericórdia manifestou-se em relação aos pecadores e pobres. Viveu entre eles. Fez-se pobre com os pobres. Com esse comportamento chocou os “bem pensantes” da sociedade a ponto de chamá-lo de endemoninhado (cf. Mc 3,22)”.
Na medida em que o cristianismo se reporta a Jesus de Nazaré, levando a sério sua encarnação tal como a Gaudium et Spes no-la apresenta, ao afirmar que “Jesus trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana e amou com coração humano”, tomamos consciência de que a realização do ser humano se efetua no agir histórico e que é no seu interior que os seres humanos se encontram com Deus, se realizam e se aproximam de Deus. Como nos afirma E.Schillebeeckx, “Deus se revelou em Jesus, conforme a concepção cristã, valendo-se do não-divino do seu ser homem... Jesus partilhou conosco na cruz da fragilidade de nosso mundo. Mas este fato significa que em sua absoluta liberdade e antes de todo tempo, Deus determina quem e como quer ser no seu ser mais profundo, a saber, um Deus dos homens, companheiro de aliança em nosso sofrer e em nossa absurdidade, e companheiro de aliança também no que realizamos de bem. Ele é, em seu próprio ser, um Deus por nós”.
Contemporâneo, isto é, compreensível para as pessoas, portanto, inserido nas culturas dos diferentes povos e cujo projeto possa ser retomado. Deve ser compreensível nos cantos, nas imagens, para poder ser seguido. Esta tem sido a dinâmica vivida pelas comunidades cristãs no decorrer da história e hoje não pode ser diferente, com o risco de tornar os evangelhos documentos puramente arqueológicos. É aqui que se insere a importância das cristologias, pois “o cristianismo é o movimento histórico que carrega a fé em Jesus Cristo, que a cristologia explicita. E a cristologia aprofunda a fé que impulsiona historicamente o cristianismo em meio às contingências humanas”. Isto significa dizer que as cristologias que explicitam a fé cristã trabalham com a história de Jesus e com a realidade das comunidades concretas com seus diferentes contextos sócio-históricos e culturais. Isto aconteceu com as primeiras comunidades cristãs e também “na situação atual as diversas igrejas se confrontam com a mesma tarefa, a não ser que se conformem com a repetição das fórmulas dogmáticas, atitude apenas na aparência mais ortodoxa... O fato de o dogma ter colocado limites claros à direção do desenvolvimento da cristologia não suprime, em absoluto, o esforço de cada comunidade em tornar concreto, quer dizer, real o significado universal de Cristo expresso no dogma”. Na verdade, este é o esforço de tornar Jesus contemporâneo. Este é o esforço da hermenêutica, pois a pura repetição das fórmulas dogmáticas pode, no decorrer da história passar pelo processo de um esvaziamento semântico e não mais conseguem reproduzir a experiência primigênia que originou a afirmação ortodoxa. Por isso, muitas vezes recitamos um credo e não sabemos mais exatamente o que as palavras significam!
2.3. Cristianismo(s) e Igreja(s).
Devido ao cisma do oriente (1054) e à Reforma de Lutero (1517), não se pode mais falar sem mais de cristianismo: “O termo Igreja começa a substituí-lo, ou pelo menos, distinguem-se vertentes no Cristianismo – católica, ortodoxa e reformada... As duas vertentes ocidentais do Cristianismo acentuam seus aspectos particulares, divergentes, distintivos. Para isso, recorrem ao termo Igreja para traduzir a própria instituição confessional católica ou protestante. E com o decorrer da história multiplicam-se as Igrejas e elas, por sua vez, traçam claramente os próprios contornos doutrinais, jurídico-institucionais e de práticas religiosas, principalmente as sacramentais”. Com o advento da modernidade e pós-modernidade, não se pode mais falar de um Cristianismo único, como era a realidade da cristandade. Diante de uma realidade plural, o cristianismo também se torna plural. Esta nova situação complexifica ainda mais a temática dos desafios a serem enfrentados, pois para além da complexidade da realidade social, defrontamo-nos com a complexidade em interno do próprio cristianismo. A exigência agora é de um diálogo ecumênico, já iniciado no século XX, mas agora muito mais premente, diante da pluralidade de Igrejas: “A distinção entre Cristianismo e Igreja permite entender a nova situação. Vimos como Jesus Cristo é distinto do Cristianismo, mas o Cristianismo é impensável sem a fé em Jesus e esta só continuou historicamente porque o Cristianismo se tornou realidade social. Assim também as Igrejas cristãs são distintas do Cristianismo e de Jesus Cristo”. Encontra-se aqui a razão da volta ao Jesus da história e todo processo hermenêutico em curso, com a conseqüente decorrência do conflito de interpretações. Como nossa experiência se dá no interior da cultura ocidental, o alcance de nossas proposições será limitada por esse horizonte histórico.
2.4. O desafio de fundar comunidades conseqüentes com a prática histórica de Jesus de Nazaré.
A missão do cristianismo é criar comunidades. Não se pode ser cristão fora de uma comunidade. É por meio das comunidades que Jesus Cristo se torna presente e se multiplica pelo mundo inteiro. Com seu agir, as comunidades dão a contribuição cristã ao processo de libertação. Na América Latina e Caribe, e hoje, um pouco por todo mundo embora de modo minoritário, notamos a contribuição das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que, com a inserção dos cristãos e cristãs na luta de libertação dos pobres e excluídos, iniciaram uma nova experiência eclesial, proporcionando um novo modo de viver a fé (nova prática da fé), um novo modo de interpretar a fé (novo modo de interpretar a Bíblia e de fazer teologia) e um novo modo de celebrar a fé (inculturação da liturgia).
O desafio que se coloca ao cristianismo é justamente em relação ao modo de se realizar essa missão no interior de um mundo marcado pelo individualismo com a hegemonia do capital. Como romper com a ideologia neoliberal presente no mundo ocidental e que busca influenciar o mundo todo? Será possível romper com esta ideologia? Para nós, na América Latina e Caribe, este desafio já está lançado e proposto: “Fazer oposição ao neoliberalismo significa, antes de tudo, afirmar que não existem instituições absolutas, capazes de explicar ou conduzir a história humana em toda sua complexidade. O homem e a mulher são irredutíveis ao mercado, ao Estado ou a qualquer outro poder ou instituição que pretenda impor-se como totalitária. Significa proteger a liberdade humana, afirmando que o único absoluto é Deus e que seu mandamento de amor se expressa socialmente na justiça e solidariedade. Significa, finalmente, denunciar as ideologias totalitárias, pois elas, quando conseguiram se impor, só apresentaram como resultado injustiça, exclusão e violência”.
Esta afirmação implica na exigência de participação política e que se paute pela proeminência e protagonismo da sociedade civil organizada na tentativa de se fundar uma nova forma de convivência social. Diferentemente da prioridade do Estado, como no caso do socialismo histórico (real), ou do Mercado, no neoliberalismo, a nova convivência social deve surgir da sociedade civil na medida em que indica o papel do Estado e do Mercado. A experiência do Fórum Social Mundial e dos Encontros Intereclesiais das CEBs, tanto em nível nacional como em nível latino-americano podem ser uma bela sinalização para esta nova proposta.
2.5. O papel das religiões no mundo excludente.
Frente à realidade de exclusão, o trabalho se apresenta como fonte de autonomia. Mas na medida em que o trabalho se torna problemático com a terceirização, a precarização e o desemprego estrutural, as pessoas entram num clima de instabilidade ou mesmo de depressão. Neste contexto, a religião pode realizar um papel importante, pois “ela pode estimular a consciência da dignidade pessoal. As pessoas podem pensar assim: neste mundo não sou nada, mas sou filha ou filho de Deus. Neste mundo, ninguém se preocupa comigo, mas Deus sim. Numerosos milagres comprovam que Deus se preocupa constantemente comigo. Se não for Deus, serão os orixás ou outro princípio espiritual. Por isso, a religião estará muito presente no século XXI. Nela abrigar-se-á o refúgio e o consolo dos dependentes, a verdadeira fonte de dignidade humana”.
3. Desafios ao cristianismo.
São inúmeros. Isto nos obriga a sermos humildes e reconhecer a complexidade do real. Nenhuma ciência hoje dá conta do real. Por isso, nossa intenção é apontar alguns desafios que nos ajudem a refletir o papel do cristianismo no início deste novo milênio. Estamos apenas em seus inícios, mas temos que pensar mais adiante. Somos, simultaneamente, galinha e águia (Leonardo Boff). Na tradição do Vaticano II, não podemos nos esquecer que: “As alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos/as discípulos/as de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração”. Esta é a proposta que se encontra presente no espírito do Vaticano II e permeia, fundamentalmente, todas as Igrejas cristãs. Podemos dizer que estamos diante da essência do cristianismo tal como se vê apresentado no mundo de hoje, em praticamente todas as correntes cristãs, mesmo se aqui ou ali ainda se fale de aceitação do sofrimento, resignação frente ao mal! Mas encontramos, cada vez mais, o anúncio de que a vida deve ser bonita (É bonita, bonita, deveria ser melhor, mas é bonita!). Esta consciência vai se tornando presente nos documentos de Igreja e penetrando o pensamento dos cristãos e cristãs do mundo inteiro. Queremos relatá-lo a partir do sentir dos bispos do continente latino-americano e caribenho em dois momentos. O primeiro se refere à compreensão explicitada em Santo Domingo: “A nós, pastores, comove-nos até as entranhas ver continuamente a multidão de homens e mulheres, crianças e jovens e anciãos que sofrem o insuportável peso da miséria, assim como diversas formas de exclusão social, étnica e cultural; são pessoas humanas concretas e irrepetíveis que vêem seus horizontes cada vez mais fechados e sua dignidade desconhecida“. O segundo está retratado no tema da V Conferência de Aparecida: “Missionários/as e discípulos/as de Jesus Cristo para que nele nossos povos tenham vida”. O cristianismo se reporta a Jesus de Nazaré e este proclama que veio para que todos e todas tenham vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). Isto não pode ser negado! E quando a realidade se apresenta em contradição com a promessa, o que fazer? Não basta apenas denunciar, condenar! Não basta apenas indicar uma nova utopia, mesmo quando necessária para manter acessa a esperança! É preciso estar presente e agir! Eis o grande desafio para o cristianismo!
3.1. Desafios advindos da realidade sócio-econômica.
Estamos frente ao processo de globalização, “dominado pela busca de unificação dos mercados e de homogeneização da economia segundo as regras do modelo capitalista”, marcadamente econômico-financeiro e dominado pelo capital transnacional e frente à implementação das políticas neoliberais que tem o Estado como principal adversário, buscando retirar dele o papel de regulador da economia e garante dos direitos sociais universais. É diante deste contexto que buscamos indicar os desafios para o cristianismo.
3.1.1. Qual a contribuição do cristianismo para acabar com a fome?
A produção de alimentos cresce, mas a fome no mundo também. Este é o grande paradoxo do mundo atual: pela primeira vez na história o ser humano vence a escassez e, no entanto, temos o maior número de pessoas morrendo de fome no mundo: Diariamente 30.000 pessoas morrem direta ou indiretamente de fome! “Em que pese o rápido crescimento da população, a produção de alimentos “per capita” aumentou quase 25%, a oferta de calorias aumentou de 2.500 a 2.750 e as proteínas de 71 para 76 gramas. Porém, ao redor de 852 milhões de pessoas estão desnutridas”. A passagem da escassez à abundância produz a pobreza: “Pela primeira vez na história da humanidade, não existe o perigo da escassez: a abundância privilegiada venceu a escassez socializada. Mas também pela primeira vez, hoje a pobreza pe produzida pela riqueza. A riqueza de uma minoria se alimenta da escassez da maioria. Mais do que nunca, o pobre é um empobrecido sistêmico e um insignificante”. Diante desta situação, podemos nos perguntar pelo sentido da palavra de Jesus: “Dêem vocês mesmos de comer” (Mc 6,37)!
3.1.2. Como enfrentar o desemprego estrutural?
Os seres humanos, nos últimos séculos, se definem pelo trabalho. Certamente, nada há de mais grave do que se negar o trabalho, quando ele define o ser da pessoa! O desemprego faz parte do processo de globalização econômico-financeira: “Um dos efeitos perversos da globalização pela via do mercado é o crescimento do número dos excluídos ou dos insignificantes: pessoas, nações, hemisférios, que não contam. As novas tecnologias cada vez mais agridem a natureza e dispensam a mão-de-obra, forçando a migração interna do campo para as cidades e a migração externa controlada pelos países prósperos que fazem dela exército de mão-de-obra reserva e fator de desvalorização do trabalho”.
O que podemos fazer frente ao desemprego estrutural? É possível encontrar outras alternativas em relação ao trabalho? Que tipo de retribuição? A doutrina social da Igreja tem algo a oferecer? A realidade do desemprego está presente em todos os países do mundo, mesmo no primeiro mundo: “Hoje, o trabalho torna-se uma meta inalcançável para muitos. Ou, então, a retribuição do trabalho é tão baixa, que não permite comprar os bens necessários para viver. É o sinal mais evidente da ausência absoluta de solidariedade”.
3.1.3. Como colaborar na superação da violência?
A violência vem crescendo continuamente, sobretudo nos grandes centros urbanos e continua um grande desafio para que a vida das pessoas não se torne uma angústia permanente. Com a falta de confiança na atividade política, nota-se uma insegurança crescente na vida cotidiana das pessoas: “violência urbana, conflitos entre grupos armados, onipresença do narcotráfico com seus tentáculos. Multiplicam-se as diferentes formas de proteger-se do “outro”, concebido como ameaça e inimigo: espaços fechados, polícia particular, portões e muros. O mais grave é que cada vez mais jovens caem na armadilha da violência e desenvolvem uma sociabilidade agressiva e violenta”.Não há dúvida de que as causas deste aumento de violência estão ligadas ao processo de empobrecimento e miserabilização da população. Aplica-se muito mais na produção de armas do que na ajuda humanitária: “Para cada dólar que os países gastam com a ajuda humanitária, os países desenvolvidos destinam 10 dólares para os gastos militares... Em 2003, no mundo foram destinados 642 bilhões de dólares no gasto militar e 69 bilhões na ajuda ao desenvolvimento”.
Em que medida o cristianismo pode contribuir para inverter esta realidade no mundo? Como implementar formas de resistência? Como incentivar comunidades que sejam conseqüentes em sua prática com a proposta do Reino anunciado por Jesus como Boa Notícia para os pobres? Há um processo que merece a atenção das Igrejas, pois em muitos lugares da América Latina e Caribe e em outras partes do mundo, “nascem e multiplicam-se as redes solidárias, as cooperativas de artesãos, os grupos de mulheres, de economia solidária, de familiares de vítimas da violência, de ambientalistas. E neste longo e doloroso caminho, descobriu-se que resistir não é simplesmente se pôr na defensiva ou ancorar-se no passado, implica, também, na capacidade de negociar e incorporar a novidade para afirmar a vida em todas as dimensões”.
3.2. Desafios advindos da realidade política e cultural.
3.2.1. Como colaborar na implementação dos direitos humanos e que se tornem direitos dos pobres?
O cristianismo bebe da tradição bíblica exodal, onde Deus é apresentado como aquele que liberta seu povo das garras da opressão (Ex 3,7-10; 20,2) e se enraíza também na tradição que remonta a Jesus de Nazaré com a boa notícia para os pobres e excluídos de seu tempo, anunciando-lhe a vida e vida em abundância (Jo 10,10). Na tradição da mensagem social da Igreja, notamos também a defesa dos direitos humanos (direito ao trabalho, à moradia, à saúde, à educação, à informação, ao lazer). Mas como passar dos princípios para a execução destes direitos especialmente em relação aos pobres? Como traduzir, no hoje de nossa história, a afirmação de Santo Irineu: “A glória de Deus é o ser humano vivo”? D. Oscar Romero traduziu tal afirmação na América Latina e Caribe por: “A glória de Deus é a vida do pobre”!
3.2.2. Como trabalhar na superação dos preconceitos e discriminação contra a mulher, os negros/as, povos indígenas.
Assistimos no mundo a um reconhecimento do pluralismo cultural e religioso que se contrapõe a todo processo de preconceitos e discriminação: “Em nossos dias, fatores de mundialização são de igual modo ideais como os de uma ética mundial, de um mundo solidário, de uma consciência ecológica do cuidado da vida, da emancipação feminina, de paz entre as religiões, etc. No campo da experiência religiosa, está presente a sede de sentido da vida e do significado último da aventura tecnológica... Com o incremento das comunicações, inclusive as grandes tradições religiosas se conhecem mais que antes, estabelecendo entre si laços de diálogo e intercâmbio. Elas exercem, na atualidade, uma notável influência na condução dos destinos da humanidade, da defesa da vida, da instauração da paz e da afirmação da transcendência”.
O cristianismo não pode deixar de reconhecer tal processo com o risco de perder sua credibilidade. Deste modo, tanto na América Latina e Caribe, como no mundo inteiro, podemos dizer que o reconhecimento do atual pluralismo cultural e religioso é o caminho necessário para se pensar as bases de uma nova evangelização, do diálogo ecumênico e inter-religioso. Qualquer tipo de discriminação de gênero ou étnica se contrapõe ao ideal de convivência em uma comunhão de iguais e diferentes. Esta perspectiva responde a uma das verdades centrais da vida cristã: a comunhão trinitária. Concretamente, hoje, o cristianismo deve se confrontar com a homogeneização neoliberal que inviabiliza o reconhecimento da alteridade.
3.2.3. Como contribuir na construção de uma sociedade em que não haja exclusão?
A democracia pareceria ser o caminho para a construção de uma sociedade justa e sem exclusão. Bento XVI afirma que este é o papel da política: “A justa ordem da sociedade e do Estado é a tarefa principal da política... A justiça é o objeto e, portanto, também a medida intrínseca de toda política”. Hoje, porém, há um descrédito da política, pois o Estado está nas mãos do poder econômico. Entretanto, há um processo de participação pelo mundo todo, traduzido no Fórum Social Mundial, que vai exigindo uma radicalização da democracia: “Trata-se de um novo paradigma, no qual o “poder sobre” os outros, que com freqüência acompanha o desenvolvimento das atividades sociais, políticas ou técnicas, esteja internamente animado e controlado pela construção do “poder com” eles. Trata-se de radicalizar os processos democráticos substituindo relações de poder unidirecional por relações de autoridade compartilhada. Hoje, vemos a necessidade de ampliar nossa compreensão da democracia, superando a visão exclusivamente formal desta; nesse sentido profundo, a democracia é todo processo de transformação de relações de poder em relações de autoridade compartilhada. Não somente no espaço público, mas também na família, na rua, na escola, no trabalho. E de forma especial na relação homem-mulher, que os penetra transversalmente”.
Uma das marcas fundamentais do cristianismo é a defesa que faz da pessoa humana. No batismo, base de todo ecumenismo, há a afirmação da igualdade entre todos e todas (Gl 3,26-28). Contribuir na construção desta sociedade igualitária, solidária, fraterna, de partilha é a missão do cristianismo: “O futuro da humanidade e do Cristianismo está na construção de uma sociedade em que os pobres tenham lugar e a longa ideologia do antiigualitarismo seja superada pelo espírito de comunhão, de participação e de solidariedade”.
3.3. Desafios advindos da relação sociedade com a natureza.
A ecologia torna-se, hoje, um dos fatores fundamentais de mundialização, fazendo-nos sentir cidadãos e cidadãs universais, responsáveis por tudo o que acontece no planeta, assim como sofrendo todas as conseqüências da sua destruição. Por isso, é preciso que tomemos consciência de que “não estamos simplesmente na terra, somos da terra: entre os seres vivos e inertes, entre a atmosfera, os oceanos, as montanhas, a superfície terrestre, a biosfera e antroposfera se fortificam inter-retro-relacionamentos. Não há adição de todas estas partes, mas organicidade entre elas. Todos são interdependentes de sorte que forma um único sistema complexo. Aumenta a convicção de que a cidadania universal pela ecologia é um elemento indispensável na consecução dos objetivos econômicos, sociais e ambientais de maneira equilibrada, o que implica proteção jurídica, para além das leis nacionais, toda vez que afeta a comunidade internacional”.
O cristianismo, com base na teologia da criação, não pode ficar alheio a este movimento de consciência planetária, pois a terra é a nossa casa comum, o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação (cf. Gn 6,9-13). Nossa profissão de fé confessa Jesus como o Senhor da História e como o Senhor do Universo. Ele é o Cristo Cósmico. Temos responsabilidade histórica de entregar aos irmãos e irmãs que virão depois de nós a herança que recebemos. Se falharmos nesta entrega, estaremos cometendo uma irresponsabilidade histórica, verdadeiro pecado contra o Deus da Criação.
3.4. Desafios advindos do sentido da vida.
Nossa fé cristã se enraíza em Jesus de Nazaré, proclamado o Cristo, o Senhor do universo. Nele temos o sentido da vida e da história (cf. Jo 14,6). A grande questão é: como anunciar o sentido da vida para aqueles que não têm vida? Como nos aproximar dos outros com persuasão, sem imposição e lhes oferecer o que temos de mais sagrado, de mais profundo? Como o cristianismo poderá ajudar as pessoas a encontrarem sentido para vida diante de tanta miséria, fome, violência, desrespeito às pessoas e destruição da natureza? Em todos os momentos de crise na história do cristianismo, se voltou a Jesus de Nazaré, fonte de todas as significações. Para que o cristianismo tenha futuro e possa dizer algo à humanidade é necessário voltar ao Jesus de Nazaré e voltar a beber de sua prática: “O encontro com o Jesus histórico tem força revivificadora do Cristianismo, não por meio de uma volta fundamentalista, nem cópia material, mas releitura do conjunto da obra de Jesus para a sociedade atual. Tarefa ingente e nunca concluída... A chance maior do Cristianismo não virá de seu conteúdo doutrinal – ele mesmo maravilhoso –, nem da eficiência organizativa das atuais formas de Igreja, mas da maneira como as comunidades viverão os valores do futuro da humanidade: solidariedade, paz, convivialidade humana, esperança nas tribulações, fé-confiança no ser humano malgrado as terríveis decepções e perversidades”. Como a missão do cristianismo é fundar comunidades, cremos que o maior desafio é a fundação de comunidades conseqüentes com sua prática. Esta é a melhor maneira de pregar Jesus.
4. A título de conclusão.
O cristianismo sempre se refere a Jesus de Nazaré. É um fato histórico. Vive sempre os conflitos das interpretações. Isto faz parte de toda a história do cristianismo. Há tensões presentes nas definições dos Concílios reveladas pelas controvérsias cristológicas, sempre ligadas aos contextos sócio-históricos. É o preço que o cristianismo paga por sua historicidade e contemporaneidade.
As Igrejas devem apresentar Jesus como aquele que dá sentido à vida e à história. Hoje, diante da crise ecológica devido ao aquecimento do planeta, pensa-se Jesus em sua dimensão cósmica. Todas as significações têm a ver com a vida dos seres humanos e de todos os seres da natureza em seu inter-retro-relacionamento com o universo ou universos.
A proclamação de Jesus como verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, consubstancial ao Pai e consubstancial a nós, tem perpassado a história do cristianismo (Nicéia – 325; Constantinopla I – 381; Éfeso – 431; Calcedônia – 451) e tem sofrido um tensionamento, que, muitas vezes, se aproxima de um esgarçamento. Insistência de um lado na divindade e de outro na humanidade. Como anunciar um cristianismo que consiga captar todas as aspirações do ser humano?
A Gaudium et Spes buscou traduzir a encarnação para se tornar elemento de compreensão para o ser humano de nossa época: “Jesus trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana e amou com coração humano” (GS, 22). Para muitos tal tradução parece ser humanizante! Daí reações que se traduzem em práticas nem sempre compatíveis com a vida e mensagem do Jesus histórico.
Na oração da Va. Conferência, Bento XVI faz uma tradução da profissão de fé cristã: “Senhor Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, rosto humano de Deus e rosto divino do homem”. Em que medida esta tradução poderá relançar o cristianismo no mundo de hoje? Como compreender a relação entre humanidade e divindade? Conseguirá dar conta dos desafios que enfrentamos, hoje, em relação aos problemas econômicos, políticos, culturais, religiosos? À questão do aquecimento global? Ao sentido da vida? Que mediações serão necessárias?
Benedito Ferraro
PUC-Campinas
Mesmo tendo uma história mais longa do que o Fórum Social Mundial, não podemos deixar de fazer uma comparação: O Fórum Social Mundial está para a sociedade, assim como o encontro intereclesial das CEBs está para a(s) Igreja(s). Há muitas aproximações que podem ser feitas: busca de autonomia na construção do encontro, utilização de espaços públicos, presença de pessoas excluídas que não teriam lugar assegurado em outras instâncias, representantes de outros países, presença significativa de jovens, espaço das mulheres, presença de várias Igrejas e religiões. O Fórum Social Mundial apresenta-se com a proposta de que um outro mundo é possível: Um outro relacionamento entre os povos, o respeito pela ecologia, a convivência respeitosa das diferenças, a vivência da justiça como alicerce de todas as relações sócias e políticas entre povos e pessoas. É um sonho, uma utopia que devem funcionar como um horizonte a ser buscado, acionando todas as reservas de criatividade dos seres humanos em busca do Paraíso Perdido, da Sociedade sem classes, da Terra sem Males! Os intereclesiais apontam para a possibilidade de uma outra convivência entre as Igrejas e as religiões. É ainda um ensaio, uma pequena semente, mas que tem a perspectiva de se tornar uma grande árvore!