ACOLHER
BEM AINDA É UM DESAFIO PARA A IGREJA CATÓLICA
Helena Corazza
Um
dos grandes desafios da Igreja Católica no Brasil hoje
é acolher bem os fiéis para que eles possam
se sentir integrados às comunidades paroquiais e se
engajar em algum trabalho. Muitos se queixam da frieza de
padres e secretários(as) paroquiais. Há estudiosos
que acreditam que o acolhimento seja um dos fatores que leva
algumas pessoas a buscarem abrigo em Igreja evangélica.
Para orientar melhor esse trabalho, a jornalista, integrante
da equipe de reflexão do setor de comunicação
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),
escritora e religiosa, Helena Corazza, lançou o livro
“Acolher é comunicar – como trabalhar com
o ministério da Acolhida”, (Paulinas)
1.
O que é uma boa acolhida?
Uma boa acolhida, na verdade, é uma
atitude. Não são técnicas, não
é só organizar para que tudo esteja certinho.
É também isso, mas é sobretudo uma atitude
das pessoas que acolhem. Nesse sentido, coloco uma boa acolhida
como uma atitude constante de abertura ao outro.
2.
Quais as principais falhas na área da acolhida na Igreja
Católica no Brasil?
Acolhida ainda é um problema, porque
existe um contexto todo diferenciado no mundo de hoje. O que
nos desafia na questão acolhida atualmente são
as mudanças sociais, políticas, econômicas,
a mobilidade social, a migração. Então,
a Igreja tem que se reposicionar em relação
a uma série de coisas. Há um contexto que desafia,
sobretudo a Igreja católica, que sempre teve seu público
muito certo, muito previsto, muito ensinado, e que hoje não
responde mais como respondia antigamente. Mudaram muito as
situações e, agora, as pessoas têm muitas
opções de religião, até de forma
de atendimento, de lazer e de tantas outras coisas. Essas
mudanças é que acabam “criando um problema”
que, na minha opinião, é também uma grande
oportunidade para a Igreja.
Nós, da Igreja Católica, temos
que nos reformular para que as pessoas que pertencem a ela,
que foram batizadas, mas que se afastaram da prática
religiosa possam ser reintegradas. O problema talvez seja
a falta de sensibilidade e de agilidade para mudar as estratégias
do nosso atendimento nas igrejas. De repente nos acomodamos
num sistema, num método, num jeito e achamos que todo
mundo tem que se adaptar a ele, porque essa é a prescrição
da igreja. Para o mundo de hoje, moderno e pós-moderno,
as pessoas não se movem por isso, ao menos que tenham
uma fé realmente sólida. Mas o problema não
são os que participam, que têm uma fé
sólida, o problema são aqueles que, às
vezes, estão mais fragilizados. Na verdade, o grande
problema talvez seja a gente tomar consciência, mudar
nossas estratégias e adaptá-las de acordo com
uma realidade que realmente satisfaça as pessoas, para
que elas se sintam cativadas, atraídas para estar,
com alegria e com prazer, na Igreja.
3.
A questão da acolhida mal feita pode ter contribuído
para a redução do número de católicos
no Brasil?
Penso que sim. Há uma pesquisa nesse
sentido que sempre me disseram que foi feita pelo Regional
Sul, em São Paulo – mas eu não consegui
obtê-la até hoje, em preparação
para as Diretrizes da CNBB, no final dos anos 80 e início
de 90. Essa pesquisa, na verdade, resultou em uma tomada de
consciência, porque até então pensava-se
que as pessoas saíam da Igreja Católica por
causa da influência da mídia. É aquele
chavão que todo mundo diz: “ouviu a rádio
tal, ouviu a televisão tal e foi para lá”.
Depois foi constatado que isso se dava por falta de acolhida
na Igreja Católica. Tanto que as diretrizes, de 1991
a 1994, colocam essa questão de maneira muito forte.
Realmente as pessoas se afastaram por causa da acolhida. Mas
a Igreja Católica está consciente disso há
mais de dez anos e já colocou o problema nas suas diretrizes,
no sentido de que seja feito um trabalho para que isso seja
modificado.
4.
Foram tomadas providências concretas para mudar essa
situação?
Há muitas providências que
têm sido tomadas. Por exemplo, há uma tomada
de consciência muito grande na Igreja, em todos os níveis.
Há muitas dioceses fazendo cursos e preparando lideranças
para a acolhida. As Diretrizes da CNBB retornaram a questão.
Penso que estamos tomando providências, mas a gente
tem que ser mais efetivo em todos os níveis. Tanto
que vemos a colhida não tanto como uma pastoral, mas
como ministério, no sentido de que cada cristão
tem que se acolhedor; porque a acolhida não se dá
na porta da igreja. Ela se dá em todos os sacramentos,
em todos os contatos. Muitas vezes uma acolhida pode ser no
ambiente de trabalho, na rua, onde houver uma pessoa precisando.
Hoje o coração que acolhe, para mim, é
como aquele primeiro sinal. Porque a acolhida é um
testemunho, é aquele primeiro cativar. Não há
um momento certo para uma pessoa ser cativada. Se a gente
tem presença de espírito, se está despertado,
todo mundo serve para se acolher.
5.
O resultado desse trabalho junto aos fiéis ainda vai
demorar a aparecer?
Não tenho tanto conhecimento de resultados.
Porque a gente às vezes semeia, semeia e não
toma conhecimento da colheita. As próprias igrejas
deverão avaliar e observar. Quer dizer, que há
várias maneiras de acolher. Desde as visitas, o contato.
O lugar onde a gente pensa é a Igreja, mas não
é só lá, é indo ao encontro das
pessoas. Em todos os momentos podemos cativar as pessoas.
6.
Seria necessário fazer-se uma mudança cultual?
Sempre tem aquela coisa de se sentir bem.
Acho que, de repente, nós, na Igreja Católica,
trabalhamos muito a questão da doutrina, da razão
por muitos anos. Não foi só a Igreja, foi toda
uma cultura. O pensamento de que era preciso mudar, assumir
uma obrigação. Na sociedade atual, as pessoas
já não se movem tanto pelo dever, mas pelo prazer,
pelo prazer de estarem juntas. Então as nossas igrejas
precisariam ser esse espaço que as pessoas gostam e
têm prazer de estar.
Há mais de dez anos que estou muito
sensível a esta questão da acolhida. Fiz uma
frase olhando para como Jesus acolhia as pessoas do seu tempo,
porque naquele tempo também necessária uma boa
acolhida, sobretudo para os mais afastados. A frase é
assim: o humano é a porta de entrada para Deus. Sempre
que uma pessoa tem um gesto humanitário, ela abre a
porta para passos seguintes.
Uma vez eu soube que dom Serafim disse uma
frase muito sábia em relação à
Pastoral Vocacional. Ele teria dito para os animadores vocacionais:
“Vocês estão preocupados em que os jovens
se comprometam, mas eles primeiro precisam ser cativados”.
É um pouco esse processo que a Igreja precisa fazer
na acolhida. Na verdade e no amor é assim. Primeiro
a gente cativa, você gostou, encontra, depois vai comprometendo-se.
Acho que a gente precisa de mudar, por isso falei de estratégia.
7.
Há críticas em relação à
colhida que é feita por padres e secretários
(as) paroquiais. Como melhorar isso?
Realmente, os padres e as secretarias paroquiais
são ponto-chaves para a acolhida. São o cartão
de visitas. O padre, por seu próprio valor simbólico
e por todas as funções que ele desempenha, deveria
ser sempre aquele bom pastor, de coração aberto,
acolhendo as pessoas na situação que estão.
As secretarias são um ponto no qual
se articula esse acolhimento. As dioceses hoje trabalham muito
essa questão através de reuniões de secretárias.
O que a gente percebe primeiro é que as pessoas não
estão devidamente preparadas para o trabalho que fazem.
Como as empresas treinam muito seus funcionários, dando
clareza ao que vem devem fazer, assim deveria fazer a igreja.
Uma secretária paroquial tem que ter clareza do seu
trabalho, têm que acolher da melhor maneira possível.
Mas observamos que as secretárias ficam inseguras na
hora de dizer um não, sobretudo em se tratando de questões
delicadas. E, diante da insegurança, elas acabam ficando
duras.
8.
O que poderia se feito para melhorar isso?
Dei um curso numa diocese e pedi para dramatizar
os problemas. Percebi que o padre nunca estava presente nas
dramatizações. Os personagens queriam falar
com o padre, se confessar e nunca o padre estava. Perguntei
se elas estavam querendo isentar o padre ou é fato
que o padre nunca estava para o povo. O padre tem que ter
horários de atendimento. Claro que o padre é
uma pessoa humana, tem seus limites e precisa coordenar os
trabalhos. A igreja de novo tem que abrir o leque. Tem que
se abrir ao aconselhamento, orientar. Claro que devidamente
organizados, pessoas idôneas. Pastoral da escuta existe
em muitos lugares. Às vezes realmente os secretários
e secretárias não estão devidamente instruídos,
não conhecem a lei do Direito Canônico, não
sabem dizer um não, que é duro para quem chega,
com uma certa suavidade, sem que isso se torne um motivo e
afastamento das pessoas. As dioceses,de uma maneira geral,
estão atentas a essa questão, mas têm
que trabalhar mais para que o problema não fique nas
mãos desses pobres secretários e secretárias.
Alguns fiéis acabam indo para outras denominações
religiosas, que têm menos exigências.
A igreja tem que trabalhar melhor algumas
questões, como, por exemplo, a Pastoral da Segunda
União, que está presente em muitos lugares.
Essa é uma relação de inclusão
e exclusão, para a qual os secretários paroquiais
precisam estar preparados, treinados também para encaminhar
os problemas que não são da sua alçada
a alguma superiro que possa dar o atendimento.
9.
A acolhida feita pelas Igrejas evangélicas é
mais eficiente do que a da Igreja Católica?
Não tenho um conhecimento tão
profundo das Igrejas Evangélicas, mas tenho observado
bastante. Quando citamos a Igreja Evangélica, não
é para dizer que ela é melhor que a nossa. Acho
que aprendemos com todos. Às vezes entro de propósito
numa Igreja evangélica para observar e percebo que
eles têm uma organização que permite que
sempre tenha alguém acolhendo quem passa. E é
isso que faz falta para nós. Tem um capítulo
no meu livro que fala da necessidade de organizar melhor nossa
acolhida. Na Igreja Católica temos o voluntariado que
está aí trabalhando. É claro que todos
têm compromissos familiares, outras pastorais, então
devemos organizar de maneira que sempre tenha plantão.
Precisamos aprender isso com os evangélicos.
10.
Como a Igreja católica está acolhendo alguns
desses grupos de excluídos, como os homossexuais, os
casais em segunda união e as mulheres?
Existe toda uma questão
de orientação, de doutrina dentro da igreja.
Para a igreja, o matrimônio é indissolúvel.
Quando um casamento não deu certo,
como nós tratamos? Há hoje o resgate pela segunda
união. Mas sabemos que as pessoas não participam
de maneira plena. Embora eu tenha dado um curso de acolhida
do qual participou uma senhora que coordenava os casais de
segunda união e se sentia superentrosada na Igreja.
Essa é uma maneira de acolher.
A questão dos homossexuais é
difícil, porque, na verdade, Jesus nunca exclui a pessoa.
Às vezes são comportamentos que não condizem
com algumas orientações da Igreja, são
áreas delicadas. O acolhimento à pessoa sempre
deve haver. Mas nós discriminamos às vezes culturalmente,
não só a Igreja. Discriminamos culturalmente
as pessoas que estão fora de um determinado padrão
de comportamento que pensamos que todo mundo deveria adotar
e que a igreja acolhe. Outras vezes não é a
Igreja que discrimina, mas as pessoas que se sentem assim.
Existe o normativo da Igreja que é
bastante forte e que, às vezes, sem querer excluir
acaba excluindo. Fiz minha dissertação de mestrão
sobre o tema de gênero nas rádios católicas.
Sabemos que na nossa sociedade a mulher tem uma participação
grande. A sociedade está muito aberta para a participação
da mulher. As igrejas, de um modo geral, também estão.
A Igreja Católica mantém a sua lei. Penso que
com o tempo ela terá que se reformular nessa questão
de a mulher não participar da hierarquia. Diáconos,
padres e bispos são apenas homens. Pelo fato de ser
mulher, ela está excluída disso. Claro que as
mulheres participam nas assessorias, nos ministérios.
Às vezes há a brincadeira de que se as mulheres
se afastassem da Igreja, ela ficaria vazia. As mulheres na
verdade, carregam comunidades. Em cursos que a gente dá,
isso emerge muito forte, já que elas têm consciência
de seu trabalho. São questões também
culturais que se tem que trabalhar junto. Devemos trabalhar
pela inclusão das pessoas. Quem nos ensina todo o projeto
de acolhida e projeta luzes é a própria prática
de Jesus, e nós somos seguidores dele.
Texto
extraído do Jornal de Opinião, Visão
Cristã da Atualidade, 14 1 20 de julho de 2003, nº
737, ano 14, Belo Horizonte – MG.
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