OS SONHOS E AS ANGÚTIAS DO JOVEM NOMUNDO DE HOJE
Eduardo Franco

   Os jovens de hoje vivem num mundo bem diferente daquele que seus pais, hoje na faixa dos 35 aos 45 anos, viveram. A revolução tecnológica oferece ferramentas como a internet, que permite que eles naveguem e se comuniquem com os quatro cantos do mundo. Também estão tendo a oportunidade de conviver como primeiro governo popular da história da nação, o que foi objeto de luta dos pais, que durante anos tiveram sua liberdade e direitos humanos solapados pela ditadura militar. Os jovens agora também são bombardeados por apelos consumistas e recebem mais estímulos violentos por meio de jogos eletrônicos e da mídia.
   Enfrentam mais violência nas ruas e, em razão disso, acabam ficando mais tempo em casa ou enclausurados dentro dos shopping centers. Outro problema é a falta de perspectiva de trabalho, já que o Brasil vive uma grave crise de desemprego. Considerando essa realidade, O JORNAL DE OPINIÃO convidou três jovens a darem sua opinião sobre as angústias e os sonhos da juventude atual, além de tecerem comentários sobre o conflito de gerações. Eles se mostram preocupados com algumas questões, como a violência e o desemprego, mas estão otimistas quanto ao futuro.
   Com base nos depoimentos desses jovens, a psicóloga clínica Gilce Câmara Marchi conclui que o jovem de hoje não está alienado, preocupa-se com questões sociais (oportunidade de trabalho, violência, fome...) e está apreensivo quanto ao futuro da humanidade. “Também valoriza a família como “porto-seguro” para reabastecê-lo nos momentos difíceis quando necessita de mais atenção, cuidado e apoio”, completa.

Fé num mundo melhor
   “Os jovens, assim como eu, esperam por um futuro melhor, de prosperidade, fe´, muita luta e justiça. Acredito no futuro e não acho que é hora de desanimar, espero traduzir nas minhas palavras toda essa esperança. O jovem de hoje vive em função de um tempo curto para desenvolver a sus capacidade de sentir e existir, procurar pelos meios saudáveis de ser feliz.
   Como diria o poeta, acredito que o jovem, antes de tudo, está perdendo o seu direito de sonhar, contar estrelas, observar os acontecimentos ao seu redor, indagar, criticar.
Muito antes de aprender como utilizar um computador ou manipular um vídeo game, é necessário compreender que valores, como o amor, a família, Deus e a amizade, ainda existem e são palpáveis. Falta diálogo, atenção e cuidado.
   Negligenciar a sensibilidade é reduzir as chances peculiares de encontrar-se no mundo, ser, estar e acontecer. Angústia é não ver luz, não ter paz, não ter tempo para ser o que se é. A plenitude da existência está contida no pouco que é semeado diariamente no coração das pessoas, é tempo de cultivar no coração dos jovens a esperança, é disso que o jovem precisa: esperança.

Sonhos...
   Abraçar o mundo, ver, aprender, adquirir... ‘Sonhos são como deuses’, o principal sonho dos jovens, transcendo a vaidade, é encontrar um porto-seguro, um meio de obter do espaço e do tempo resposta para os acontecimentos e angústias que traçam o perfil de toda a humanidade. Sonhar o inesperado, o possível e o impossível, sonhar por sonhar, sentir por sentir, o principal sonho de um jovem, bem no fundo de sua alma, é ser livre, livre para sonhar.

Conflitos...
   Podemos caracterizar o conflito de gerações como um momento crítico. Acredito que toda a sociedade passa por um momento delicado, inerente aos valores pregados, à velocidade das coisas, à realidade social, política e econômica de todo o mundo e as desigualdades; situações que afastam de ambas as gerações a possibilidade de interação e reciprocidade. Falta paciência para ouvir e tempo para falar. A informação está ampliando o mundo, reduzindo fronteiras, imagens e paisagens que se anulam no olhar do jovem, que não sabe o que escolher, como opinar, qual caminho seguir, enfim com o passar do tempo, assuntos que deveriam ser tratados com cuidado são deixados de lado, e o jovem, sedento por um mundo de descobertas, impaciente, acaba perdendo-se. É importante trocar informações, experiências, aprimorar e intensificar a participação na vida humana em toda a sua plenitude.”

Novas tecnologias modificam as relações
    “Para se falar sobre o jovem de hoje, devemos contextualizá-lo na época tecnológica e capitalista na qual vivemos. Tecnológica no sentido de que até os encontros passaram a acontecer através da internet, fazendo com que o tempo para o diálogo familiar torne-se secundário. Uma boa leitura passou a ser substituída pela navegação incessante pelo sites e bate-papos eletrônicos. Não que a tecnologia não nos seja útil, mas ela está modificando as relações entre as pessoas. Além disso, reforça o pensamento capitalista, no sentido de o jovem passar a ter mais valor pelo que tem e não pelo que é.
   Por isso, seus sonhos muitas vezes são ‘ideológicos’. Por exemplo, passar no vestibular, ser independente e bem sucedido, ou ganhar dinheiro dentro da profissão escolhida, tudo isso mostra que são pessoas normais e ‘desejam’ o que está dentro dos padrões, caso contrário, são considerados rebeldes ousem perspectivas, sem ideais. Ou seja, os sonhos, na verdade, perdem a singularidade e passam a ser esteriotipados, mostrando o resultado de uma era competitiva e seletiva. São melhores aqueles que conseguirem alcançar, com sucesso, o que foi ‘comumente idealizado’.
   Penso que uma das principais angústias do jovem é o fato de não se sentir comprometido. Para isso é importante que exista o diálogo familiar e que o pais sejam referência de limite. Assim, ele consegue se aceitar e ser aceito, com suas inseguranças, limitações e, sobretudo, com suas possibilidades. Isso permitirá que o jovem conviva com as novas descobertas e enfrente seus medos de forma ponderada.
   Portanto, considero a família fundamental na formação do jovem, para que ele a reconheça como instância de valor e respeite as diferenças entre gerações (pais, irmãos, avós), evitando conflitos e aumentando a qualidade de uma boa convivência, tanto familiar quanto entre as pessoas que o cercam.”

Preocupação com trabalho e qualidade de vida
   “Como estará o Brasil ao final deste mandato do governo Lula? Quando o jovem concluir a faculdade, como estará o mercado de trabalho? O que acontecerá com a Amazônia e com água do Brasil? Será que o engajamento da população e dos governantes terá finalmente como prioridade a alimentação, a saúde e a educação? Como acabar com a crescente violência mundial? Os jovens estão sadios mentalmente? E a Igreja Católica estará trabalhando o jovem como um todo, conscientizando-o de que ele será o futuro da Igreja? Essas são algumas das perguntas que ficam “martelando” na cabeça dos jovens, deixando-os muito angustiados.
   Mesmo com essas angústias, o jovem tem muita alegria e força de viver. Seu sonho é acabar com suas angústias, tentar retribuir carinhosa e materialmente tudo a seus pais e ver a Igreja mais comunitária, missionária, participativa e com muitos jovens. Atualmente, os conflitos de gerações estão cada vez menores, pois os pais estão mais abertos ao diálogo. E a Igreja, a comunidade e, principalmente, os padres estão acolhendo e investindo cada vez mais nos jovens.”

Predomina a esperança
Gilce F. Câmara Marchi – psicóloga clínica

   O jovem, hoje mais do que nunca, necessita resgatar a intimidade consigo mesmo. O mundo em que vive, marcado pela competição exarcebada, pelo consumismo, pela banalização da violência, pelo individualismo, pelo hedonismo etc., não proporciona a ele uma aproximação com sua instância interior.
   O progresso técnico, com a valorização da objetividade, não incentiva o indivíduo a olhar para dentro de si mesmo e, na sua subjetividade, encontrar suas respostas.
   É claro que é importante buscar capacitação técnica, mas é bom ter consciência de que a autoconfiança não depende apenas do aperfeiçoamento externo, depende também, entre outras coisas, do autoconhecimento.
   Sem conhecer a si mesmo, as importantes escolhas que devem ser feitas nessa fase ficam mais difíceis; se o jovem não entende a si mesmo, como escolher? Como moldar a sua vida de forma que mais lhe agrada? Como realizar-se profissionalmente e afetivamente sem uma coerência interna?
   O jovem precisa estar emocionalmente preparado para fazer suas opções, pois, se suas escolhas são compatíveis e coerentes com suas necessidades internas, o sentimento de auto-realização é bem maior.
   A juventude vive hoje, num nível ainda mais acentuado do que em épocas anteriores, as incertezas, angústias, medos e inquietações frente ao futuro.
   Ressente-se com a infindável cobrança de ideais de perfeição cada vez mais inatingíveis. É envolvida na trama de uma sociedade que busca apoderar de sua vida através de propostas sedutoras de um consumismo materialista, do prazer fácil e imediato, que acaba levando à insatisfação e ao vazio.
   O jovem sente-se manipulado e se inquieta, mas ainda tem esperança. Ele não é insensível às coisas que o cerca, como algumas vezes imaginamos. Apenas está perdido no seu agir, pois falta-lhe referências positivas.
   Anseia em resgatar o que vem sendo esquecido: a amizade, os valores humanos e espirituais, a liberdade para sonhar, o tempo para contar as estrelas e para os encontros pessoais de experiências compartilhadas. O jovem não está alienado. Ele se preocupa com questões sociais (oportunidades de trabalho, violência, fome...) e está apreensivo quanto ao futuro da humanidade. Ele também valoriza a família como “porto-seguro” para reabastece-lo nos momentos difíceis quando necessita de mais atenção, cuidado e apoio.
   O que o jovem mais deseja é de sentir aceito pelo que é se sentir aceito pelo que é, pois no fundo ele bem sabe que a maior riqueza que pode oferecer ao mundo é a sua diferença, a sua singularidade. Angustia-se por se sentir massificado, vivendo a superficialidade de uma vida cotidiana, onde lhe falta uma bandeira para ser carregada. Mas ele tem esperança.
   O jovem, a seu modo, sente, reage, se revolta e busca alternativa para não perder o seu direito de sonhar. Ele está insatisfeito e quer mudar, mesmo que não saiba bem o que fazer ou por onde começar, mas ele anseia por uma existência mais densa de significados. Muitas vezes, no desespero de buscar algo além do que o progresso científico lhe pode proporcionar, e na incapacidade de fazer algo de eficaz a respeito de sua própria vida, ele vai ao fundo do poço e apela para as drogas ou outros comportamentos desviantes, que acabam por machuca-lo ainda mais.
   Mas ele tem esperança. Não desiste. Não se resigna com o “ter”, mas quer a valorização do “ser”. Não fica impassível frente aos fatos, mas busca, do seu jeito, conquistar o seu espaço. Para se fazer ouvir, ele grita, se rebela, agride ou mesmo busca, no isolamento ou no aparente desinteresse, uma forma de mostrar todo o seu descontentamento.
   Mesmo que não saibamos escuta-lo ou compreender os seus protestos, o jovem ainda tem esperança de se fazer ouvir... e mudar para melhor.

Texto Extraído do Jornal de Opinião, Visão Cristã da Atualidade, 20 a 26/10/2003, nº 751, Ano 14, Belo Horizonte- MG.

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