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Anotações preliminares observadas a partir de uma realidade
de assessoria popular com os recicladores e catadores de
material reciclável em Caxias do Sul – RS a partir de 2002).
“Ser Igreja” não só para si, mas ser igreja no mundo, na sociedade, dando testemunho da experiência de comunhão fraterna, do exercício do poder partilhado e de participação, incentivando a elaboração de projetos alternativos de transformação social. Somando forças, fazendo parcerias com quem já trabalha na busca da justiça a fim de superar a exclusão. É compromisso cristão e comunitário a caridade e a prestação de serviço para a construção do Reino de Deus. Dentro desta motivação e discernimento a assembléia diocesana (28/07/02) escolheu como a 3° prioridade:
Presença cristã e transformadora da sociedade (serviço à vida no mundo dos excluídos):
- Criar projetos que dêem assistência às pessoas em situação de emergência, despertando-os para a necessidade da participação de cada um na resolução do problema. As comunidades estão abertas ao envolvimento com campanhas beneficentes, pastorais do pão e da solidariedade, porém, existe a urgência de ir além do assistencial;
- Organizar projetos que eduquem e despertem a consciência para o cuidado e defesa da vida e a ecologia; projetos de geração de trabalho e renda (projetos coletivos e cooperativos); cursos profissionalizantes desenvolvendo as habilidades e preparando para a auto- sustentação;
O Mutirão nacional de superação da miséria e da fome concretiza ainda mais a disposição no compromisso com a causa da justiça do Reino e solidariedade com o povo sofrido.”Satisfaçam-se, em primeiro lugar, as exigências da justiça; eliminem-se as causas dos males, não só os efeitos; seja encaminhada ajuda de tal maneira que, os que a recebem, pouco a pouco, se libertem da dependência externa e se tornem auto-suficientes” (AA 8). A preocupação com a presença na dimensão social não deve ser restrita a um pequeno grupo, ou a ações isoladas, mas deve nascer da consciência cristã da comunidade. É necessário colocar esta prioridade no centro da comunidade para ocorrer mudança de mentalidade priorizando o protagonismo dos excluídos como possuidores de um potencial de transformação da realidade.
O cenário das “Associações de Recicladores”
Em 1997, a Administração do Município de Caxias do Sul, para conter a taxa de pobreza e de desemprego de seu território e para resolver o problema ambiental e higiênico do meio ambiente e reciclagem dos resíduos sólidos urbanos, formulou um plano para entregar o trabalho seletivo e de reciclagem dos resíduos a grupos de entidades de trabalho associativos, de modelo cooperativo (Associações de Recicladores).As unidades operativas para a atuação do plano são Associações auto gestionárias constituídas, em sua grande maioria de desempregados dos bairros mais pobres da cidade. Foram constituídas 8 (oito) associações em Caxias e existem outros grupos nas cidades vizinhas. No conjunto das 8 (oito) associações Caxienses as pessoas empregados são cerca de 200 (duzentos), contribuindo para o sustento de cerca de 1200 (um mil e duzentos) pessoas.
Opção Pastoral
No ano de 2001 a Pastoral da Diocese de Caxias do Sul se integrou a outras entidades não governamentais e com a Prefeitura.da cidade de Caxias do Sul. A intenção foi no sentido de assegurar o processo formativo, através de um projeto de formação que atingisse todas as dimensões destas iniciativas de geração de trabalho e renda (mais especificamente às Associações de Recicladores), tendo o Centro de Pastoral Diocesano como local de referência para estas iniciativas.
Diante deste cenário de tentativa de responder à necessidade de capacitação deste público alvo, nasceu a proposta do grupo de amigos italianos de que fosse encaminhado um pedido à CEI (Conferência Episcopal Italiana) para que este projeto de formação fosse garantido, através de ajuda financeira. A solicitação foi viabilizada e enviada, com a resposta positiva de ajuda para o período de três anos.
Projeto de Formação e Capacitação para Catadores e Carroceiros de material reciclável
O projeto de formação teve início no dia 01 de agosto de 2002, coordenado por um grupo de parcerias de entidades governamentais (FAS, CODECA) e não governamentais (LEFAN - Legião Brasileira de Assistência aos necessitados, CÁRITAS Diocesana, Centro dos Direitos Humanos e a Coordenação Diocesana de Pastoral). A responsabilidade direta pela coordenação, administração e monitoramento do projeto é da Coordenação Diocesana de Pastoral da Diocese de Caxias do Sul.
Durante este período os recicladores de Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Farroupilha foram divididos em três grupos e o conteúdo foi desenvolvido em três etapas. O conteúdo desta primeira etapa inaugural consiste em: 1)a pessoa consigo mesma (auto-estima, história pessoal,gênero, religião, relações.); 2) a pessoa e o valores, ética , o papel da liderança; 3) a pessoa, a realidade, projetos sociais, política. Para os próximos anos seguirão os temas tais como gerenciamento, produtividade, separação do material, especialmente voltados para a conquista da usina de reciclagem de plástico. Mas ressalta-se que mais do que analisar a conjuntura social e política o projeto de formação visa a pessoa, o seu valor, o sentido que dá a sua vida. O trabalho não só visto como a possibilidade de melhorar a sua condição de vida, mas como realização da pessoa e necessário para a vida deste planeta.
Questões internas dos grupos de associações que nos desafiam pastoralmente no acompanhamento do projeto
A relação comunitária. A experiência das pessoas, pela dureza das necessidades ou cultura neoliberal, necessidade esta centrada no individualismo, e no atendimento imediato de suas necessidades, ambição de possuir, acumular a competição dificultando o relacionamento silenciando a solidariedade. Daí porque a experiência que se propõe é de parcerias, equipes, trabalho coletivo.Quer-se romper com o paradigma dominação e de submissão e da exclusão. Há um esforço de trabalhar a auto-estima, as relações que se originem do diálogo e do respeito mútuo, da solidariedade; Medidas práticas como colaborar na elaboração do Estatuto e Regimento Interno, bem como da organização de reuniões, assembléias tornando-as relações mais justas, humana e fraternas.
A alta taxa de analfabetismo, assim como a baixa formação acadêmica nos remete a iniciativa de propor cursos de alfabetização. Vencer a ilusão de que “o dinheiro resolve tudo”, e proporcionar a alfabetização conscientizando de que não há “perda de horas trabalhadas” quando participam d reuniões e encontro e sim um ganho de qualificação.
Culturalmente são provenientes de várias localidades e advindos de culturas diversas. A busca por um “lugar ao sol” os afasta da sua origem tornando-os vulneráveis, sem maiores referenciais humano-comunitário. Para nós o desafio é a inculturação, ser presença solidária, compreender a mentalidade, valorizando e resgatando a sua cultura.
A dimensão religiosa é forte. Cresce o número de associados que participam das igrejas pentecostais. É necessário trabalhar contínua e progressivamente a mística pessoal e de grupo a relação com Deus, com a natureza, com as outras pessoas, com outros grupos, com o poder e o dinheiro. Estabelecer um dialogo maduro, acolhedor, esclarecedor, evangelizador, sem proselitismo.
A questão de gênero. As associações na maioria são gerenciadas por mulheres, mas com uma marca muito forte da relação machista no interno das associações e na família. Ajudar a compreender a dignidade dos sexos, a criar um ambiente de respeito mostrando que a perspectiva de ver encaminhar é diferente entre o homem e a mulher, mas antes de ser impedimento, divergência ela é complementaridade.
Os sonhos e utopias. No levantamento dos sonhos, intenções e desejos para o futuro é muito forte o aspecto da solução individual das necessidades e dos problemas. Há muita dificuldade de se trabalhar a dimensão coletiva da utopia e a possibilidade de construção de um outro mundo para todos... Crescer na dimensão cristã da utopia e esperança.
A consciência política é limitada na reflexão e fragmentada em sua atuação. Há muita confusão do conceito de “política”, em que se rejeita falar e discutir sobre política partidária (assusta, afasta, aterroriza). É forte também a resistência em participar de mobilizações e manifestações populares com todo o movimento social A análise estrutural e conjuntural da realidade é acentuadamente fatalista e localizada.É preciso oportunizar a análise e o estudo da realidade na linha do exercício da cidadania e a participação em eventos como: semana social, romarias, grito dos excluídos.
Dificuldade de gerenciamento e administração financeira. Ajudar a compreender a importância de gerenciar o que é comum, crescer na ética, transparência na prestação de contas e justiça na partilha.
As associações não avançaram na educação associativista junto aos associados e nem para fora da associação, o que impossibilitou a criação de redes locais e o fortalecimento de laços e negócios. Também não fortaleceu a cidadania dos associados e a sua constituição enquanto agentes de transformação na localidade e ou município.
O projeto de economia popular solidária, através da geração de trabalho e renda, priorizará a correlação de forças com as várias instâncias da sociedade civil (com o executivo, legislativo, judiciário, empresários, igrejas, partidos, ...). Se fará o investimento e articulação em uma rede de sustentação interna e externa dos projetos das associações de recicladores .
Investir na preparação de assessores multiplicadores que tenham nascido do processo deste projeto de economia popular solidária. Uma das intenções do projeto de formação é a tentativa de que “reciclador educa reciclador”, preparando quadros competentes e de uma forte mística individual e coletiva. Concluindo, com um processo contínuo e integral de formação para a cidadania.
Concluindo, mas é preciso avançar.
A presença cristã e transformadora da Igreja na sociedade de modo especial entre os recicladores quer indicar a opção pelos pobres sendo um apelo de conversão e de descoberta de Deus.
Crescer na consciência de que todos somos responsáveis pelo lixo produzido assim como para dar o destino final a estes materiais.De que há uma boa parte da população que depende do lixo como trabalho e geração de renda, mas acima de tudo da consciência da sociedade em favor da ecologia, natureza e social.
No 1° congresso Latino Americano de catadores de lixo, 19 a 23/01/03, pode-se sentir a construção de um povo e sua história, a reconquista de seus valores, mas também o perigo da manipulação dos ideais e sonhos que podem sofrer neste processo. Faz-se parte da sociedade em que valem mais as mercadorias do que as pessoas e a natureza. Só se dá valor às coisas que se pode vender para aumentar os lucros. Tudo que sobra até mesmo as pessoas - é jogado fora.
Não se presta atenção ao que é tirado da natureza para fazer as coisas que compramos, e menos ainda ao que acontece com a natureza a partir do que se joga fora.Desta experiência destaca-se a redescoberta do valor e o significado do trabalho: coletando e reciclando materiais descartados, tornando-se agentes ambientais contribuindo com a limpeza das cidades. Na organização de associações e cooperativas criar a possibilidade de emprego e renda para os setores mais excluídos da sociedade. Por tudo isso, o trabalho e as organizações dos Catadores são, hoje, uma luz que aponta na direção de um novo modelo de desenvolvimento para nossas cidades e para nossos povos. A experiência mostra que todas as pessoas podem ser muito mais felizes e saudáveis basta dar valor a tudo e reciclar tudo o que for possível, reciclando a própria vida.
Caxias do Sul, 26 de novembro de 2002.
Pe. Gilnei Antônio Fronza e Ir. Maria Brendalí Costa
Coordenação Diocesana de Pastoral |